Enquanto conduzíamos sessões de treinamento pelos EUA e pelo mundo, descobrimos que o único objetivo musical da maioria dos grupos de louvor é poder tocar uma canção igual ao CD. Apesar de haver muitas coisas que podem ser extraídas do CD para ajudar a liderar a congregação, há também um número igual de coisas que devem ser deixadas no seu microsystem.  Aqui vão 5 razões para se ter em mente enquanto estiver preparando música nova:

CDs são para os CD players

Cada canção de um CD deve ter seu momento de se sobressair em relação às outras e deve corresponder aos limites de tempo por questões radiofônicas. Introduções musicais pegajosas, solos incríveis de guitarra e outros arranjos bem orquestrados soam muito bem em um álbum. Contudo, quando seu objetivo é motivar pessoas a adorar com você, essas seções instrumentais geralmente transformam participantes motivados em espectadores simplesmente pelo fato de que a congregação deve espera-lo terminar de tocar para que possa participar. Quando se calcula quanto tempo é gasto em introduções, solos e outros detalhes, podemos chegar à conclusão de que acabam tomando alguns minutos consideráveis por canção – ao considerarmos todas as canções separadas para aquele culto, é muito tempo sendo gasto em algo que está trabalhando contra você mesmo.

Você é você

A maioria dos grupos de louvor não possuem quatro guitarristas, dois tecladistas e dois vocalistas, como podemos notar nos CDs. A maioria dos grupos possui um músico para cada instrumento e muitos vocalistas, e não é assim que os CDs são gravados. Quando um único guitarrista tenta cobrir quatro partes diferentes de guitarra e oito vozes tentam cantar duas partes, acontece um caos sonoro. Muitas igrejas estão tentando com todas as forças soar como outro ministério toda semana em vez de simplesmente soarem como de fato são.

Você não é perfeito e nem eles

CDs devem resistir o teste do tempo – são ouvidos muitas e muitas vezes por anos e anos e, portanto, as gravações são feitas para serem perfeitas. Através do uso de computadores a bateria é ajustada no beat perfeitamente, os vocais são meticulosamente afinados e as partes da música são tocadas repetidas vezes até que estejam corretas – até mesmo CDs ao vivo são consertados e melhorados após a performance. Existem tantos ajustes sendo feitos que as pessoas às quais você supostamente escuta ficam até impossibilitadas de reproduzir a gravação por conta própria. Pequenos deslizes humanos no tempo podem e frequentemente contribuem para uma grande confusão sonora quando você está tentando reproduzir as partes rítmicas muito complicadas, melhoradas digitalmente, que só soam bem no CD. Selecione partes que funcionam para humanos ao invés de máquinas.

As ferramentas não são as mesmas

As gravações são meticulosamente mixadas por engenheiros de som profissionais, por um longo tempo e com muitas revisões. Além disso, esses engenheiros possuem ferramentas à sua disposição que não funcionam para um set ao vivo. Numa gravação, os instrumentos podem ser colocados à esquerda ou à direita para adicionar clareza. Se essa mesma prática ocorrer num auditório, aqueles instrumentos colocados do lado esquerdo iriam soar completamente diferente daqueles colocados à direita. O método de equalização de um CD é feito “picotando” o som de cada instrumento para adicionar clareza e os ajustes são todos feitos apenas para aquela canção. Esse método não funciona numa apresentação ao vivo porque os cultos contêm múltiplas canções com instrumentações variáveis que demandam uma equalização constante. O resultado é que, se você tentar tocar as partes que ficaram incríveis no CD, elas apenas soarão confusas porque no CD muita coisa foi feita posteriormente para adicionar clareza.

Ornamentado para impressionar

Grupos e/ou indivíduos não são escolhidos pelos selos das gravadoras porque são os melhores em levar as pessoas à presença de Deus – são escolhidos porque vendem muitos CDs. É uma verdade inconveniente da indústria da música cristã, mas é algo que você tem que ter em mente porque os CDs são feitos para impressionar você. Eles geralmente usam partes instrumentais chamativas e letras que não fazem sentido e que soam impressionantes, mas quando a igreja tenta reproduzir um CD que, em primeiro lugar, nunca foi pensado para ser tocado ao vivo, as músicas acabam acontecendo como performance com o propósito da performance – o que pode até funcionar bem para um momento de devocional pessoal, mas perde um pouco de autenticidade no âmbito congregacional.

CDs de adoração podem ser uma ótima ferramenta, mas precisamos saber nossas metas e objetivos para nosso culto quando olhamos o que usar dos CDs. Queremos música de fundo ao dar boas-vindas às pessoas ou ao encorajá-las? Então toque o tanto de introduções que ache necessário para alcançar seu objetivo – não faça apenas porque está no CD. A parte instrumental leva as pessoas a um lugar mais elevado de adoração? Se sim, então definitivamente toque-a; mas se não, então corte-a. É a única parte da música que quando tocada a congregação parece participar da ponte? Então talvez faça só essa parte.

Use a música como uma ferramenta para liderar as pessoas juntamente com sua equipe. O engraçado é que, se você for bem sucedido em levar as pessoas à presença de Deus, ninguém se preocupará com a maneira como ela soará.

 Traduzido por José Ruy P. de Castro


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Poder cantar ao Senhor é uma bênção que Ele mesmo nos concedeu. Quando olhamos para os Salmos vemos toda sorte de sentimentos sendo cantados: alegria, gratidão, ira, (sim, ira!) e contrição. Contudo, hoje em dia, vemos poucas músicas reconhecendo nossa pecaminosidade, exaltando a graça, o amor, a misericórdia e o perdão de Deus, demonstrado na cruz de Cristo.

No vídeo abaixo, Dale Bischof canta uma música, inspirada no Salmo 51, clamando pela misericórdia de Deus e lembrando que todo pecado é condenado (ou no inferno ou na cruz de Cristo).

Todos sabemos da triste situação musical do Brasil, contudo só saber e só reclamar não irá mudar este cenário. Precisamos de músicos bons e sérios no Evangelho que componham! Que este vídeo possa servir de incentivo a vocês.




Letra

Clique aqui para ver a letra

Atenção, esta é uma tradução da letra não oficial e não metrificada.

Sou um pecador; Tu és puro, Senhor

Meus pecados contra Ti não podem ser ignorados

Eles serão punidos, eu sei que eles devem ser

Tua lei exige isso, pois Tu és justo

Se Tu contasses tudo o que eu fiz de errado

Quem ficaria de pé? Mas há perdão contigo, Deus

Tem misericórdia de mim, tem misericórdia de mim

Um coração quebrantado e contrito Tu não desprezarás

Tem misericórdia de mim, tem misericórdia de mim

Por causa do Teu amor

Pai de misericórdia, Tu entregaste Teu Filho

Para fazer expiação pelos pecados que cometi

O que Tu exigiste, Jesus cumpriu

Eu não mereço; nunca merecerei

I am a sinner, You’re blameless, Lord

My sins against You can’t be ignored

They will be punished, I know they must

Your laws demands it, for You are just

If You would count everything that I’ve done wrong

Who could stand? But there’s forgiveness with You, God

Have mercy on me, have mercy on me

A broken and a contrite heart You won’t turn away

Have mercy on me, have mercy on me

Because of Your steadfast love

Father of mercy, You gave Your Son

To make atonement for wrongs I have done

What You required Jesus fulfilled

I don’t deserve it, I never will

 

Música e letra por Dale Bischof and Pat Sczebel. © 2011 Sovereign Grace Praise (BMI)/Sovereign Grace Worship (ASCAP). Para mais informações visite: http://sovereigngracemusic.org/. Gravado no WorshipGod11 do álbum “The Gathering”. Cantado por Dale Bischof. Cifra pode ser encontrado em http://sovereigngracemusic.org/Songs/Have_Mercy_on_Me/2

Tradução e Legenda: www.voltemosaoevangelho.com. Legendado com permissão. Original: http://voltemosaoevangelho.com/blog/tem-misericordia-de-mim-sovereign-grace-music.

Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, seu ministério e o tradutor, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.


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Solano Portela

Alguns anos atrás um jovem escreveu-me perguntando qual a minha opinião sobre a utilização de cânticos com ritmos mais acentuados, na liturgia, e sobre o período normalmente chamado de “louvor”, em nossas igrejas. Na realidade, a pergunta dele foi: “São todos os ritmos apropriados ao louvor, na igreja?”.

Para tratar dessa questão, eu poderia ter entrado no chamado “Princípio Regulador”, que descreve a orientação do culto reformado, no qual somente as coisas diretamente comandadas por Deus devem fazer parte da liturgia. Ocorre que, tomado literalmente, não existe uma única igreja nossa que se enquadre na interpretação mais rígida do “Princípio”, mesmo aquelas pastoreadas ou freqüentadas por seus mais ávidos proponentes. Até nas mais conservadoras encontramos o coro da Igreja, devidamente fardado sob o nosso escaldante calor tropical, entoando belos hinos ao Senhor – alguém pode me indicar onde isso está prescrito no Novo Testamento? Mesmo em nossas igrejas co-irmãs da Escócia – supostas praticantes coerentes do “princípio regulador”; aquelas que defendem que o Antigo Testamento não tem nada a nos dizer sobre a liturgia do Novo Testamento, que são contra a utilização de instrumentos musicais e onde somente os Salmos são entoados, não existe coerência. Os Salmos são cantados, porém com músicas e métricas geradas por mentes de cristãos que viveram milênios após a escrita dos textos bíblicos e as letras são adaptações, para se enquadrar na métrica. Isso sem falar que a tentativa é de uma liturgia neo-testamentária, que, na parte da música é totalmente dependente do Antigo Testamento – pois lá é que encontramos os Salmos. Nessas igrejas, todas as palavras dos Salmos devem ser cantadas com fervor, mas se encontramos aqueles trechos que falam dos instrumentos musicais temos que ignorar tanto o texto como a eles, e considerando-os parte de uma outra era – dá para perceber alguma incoerência nisso? Recorrer, portanto a um exame aprofundado, complexo e possivelmente infrutífero, na definição e aplicabilidade do “princípio regulador”, não responderia a questão, traria outras à tona e é uma reflexão necessária que tem que ser levada a cabo em outra arena. Preferi, portanto, responder o assunto dentro do direcionamento geral que temos nas escrituras e do senso comum que Deus nos concedeu, em vez de invocar nossas raízes históricas.

Quando procuramos na Palavra de Deus não encontramos restrição ou classificação intrínseca de ritmos, como existindo os que são “maus”, e os que são “bons”. Sei que inúmeros livros têm sido escrito, no campo evangélico, sobre as raízes malévolas de certos ritmos e é certo que os ritmos estimulam as pessoas a diferentes estados de espírito, mas permito-me desconfiar das conclusões supostamente científicas e das conexões traçadas por tais trabalhos. Na maioria das vezes temos apenas uma coletânea de opiniões pessoais e ilações infundadas. Às vezes, somos levados à dedução de que o único cântico admissível na igreja seria, preferencialmente, o gregoriano, de alguns séculos atrás, sem muita variação musical ou harmonia.

A realidade é que a Bíblia parece aceitar a utilização de ritmos na adoração. Com certeza existiam os Salmos “mais agitados” e os “mais lentos’. Independentemente de tratarmos de “liturgia do VT” ou “do NT”; do templo, da sinagoga ou da igreja primitiva, Deus permanece o mesmo e o seu agrado/desagrado não deve ter sido modificado na Nova Aliança. Assim, qualquer investigação sem idéias preconcebidas, verificará que instrumentos diversos e variados foram utilizados pelos fiéis e aceitos por Deus, na adoração de sua pessoa.

Como já frisamos, entretanto, independentemente da letra, existe uma empatia entre melodia e ritmo, e o estado de espírito provocado nos cantantes/adoradores. Ou seja, um ritmo agitado em uma hora de contrição é uma contradição de bom senso (algo há muito perdido em nossas igrejas). Não deveríamos precisar de uma profunda exposição teológica para substanciar isso. Um ritmo lento, ou em tom (clave) menor, numa ocasião de festa, de acampamento, por ocasião de uma caminhada, é também uma contradição de bom senso. Quando esse julgamento é quebrado, na igreja, faz-se também violência aos que estão sinceramente procurando adorar. O Salmo 33.3 nos orienta a cantar “com arte” (qualidade, propriedade, musicalidade, harmonia) e“com júbilo” (entusiasmo). Isso nos indica que intensa qualidade musical deve ser objetivada no louvor a Deus e, por outro lado, que é um erro equacionarmos espiritualidade, com um cântico “morto” destituído de entusiasmo, sem o envolvimento de todo o nosso ser.

A maioria dos Salmos possui títulos que grande parte dos eruditos bíblicos considera como sendo parte do texto original. Essa conclusão ocorre não somente porque se encontram nos manuscritos mais antigos, como também porque muitos estão incorporados ou intrinsecamente ligados ao texto, mas também porque outros livros bíblicos (Exs.: 2 Sm 22 e Habacuque 3) trazem tanto salmos como os seus títulos em seus textos inspirados. No livro dos Salmos, os títulos, muitas vezes, classificam aqueles cânticos quanto às diferentes ocasiões nas quais deveriam ser entoados. A indicação parece ser a de que existiam melodias e ritmos próprios para cada situação, por exemplo:“cântico de romagem [marcha]” (Salmo 120); “salmo didático, para cítara” (Salmo 53); “para instrumento de corda” (Salmo 4); “para flautas” (Salmo 5). Cada dirigente de música ou líder eclesiástico, em nossas igrejas, deveria levar essa questão em consideração utilizando a massa cinzenta que Deus lhes deu para discernir os ritmos apropriados e impedir aberrações na liturgia.

No que diz respeito à letra, as Escrituras dão considerável ênfase à linguagem dos cânticos. Em Efésios 5:19, a força da prescrição está na comunicação que os cânticos devem apresentar:  “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais”.

Ou seja, é totalmente destituído de valor o cântico no qual não existe concentração na letra, ou quando esta não reflete os ensinamentos da Palavra, ou quando é entoado mecanicamente, só pelo ritmo ou melodia. A passagem paralela, em Colossenses 3:16, também enfatiza o aspecto de comunicação eexortação através dos cânticos, sempre fundamentados na Palavra de Deus (ou, como traz o texto, na Palavra de Cristo): “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração”.  Não resta dúvida, pois, que as letras, ou as palavras, devem refletir os ensinamentos bíblicos e comunicar coisas inteligíveis aos participantes. Hinos, corinhos, cânticos que não comunicam ou que têm palavras antigas, anacrônicas, obsoletas, obscuras ou hebraismos / helenismos desconhecidos dos que cantam e/ou ouvem — fogem à característica bíblica da adoração, na qual a comunicação é parte importantíssima. Vale a pena, portanto, perguntarmos, será que todos sabem, mesmo, o que é El-Shadai? E o que deveríamos pensar do “…lá, lá, lá, lá…” tão freqüente nos cânticos contemporâneos? Estão comunicando o que?

O grande problema contemporâneo que encontramos, acredito, reside em dois pontos cruciais: (1) Um anacronismo enrustido de uns – esses acham que algo para ser bom, cristão e próprio tem que ser velho e maçante; (2) Uma ingenuidade gratuita de outros, que, se deixada ao bel-prazer, vira arrogância e descaso pelo bem estar espiritual dos demais irmãos. Esses demonstram desconsideração para com a sanidade estética, mental e auditiva dos fiéis. Esses ingênuos arrogantes, aceitam QUALQUER RÍTMO, desde que “cristianizado” ou “biblicizado” – como sendo legítimo e apropriado a qualquer hora. O mais aberrante é a mistura indiscriminada de ritmos, um atrás do outro, sem uma direção ou conceito maior de que o objetivo global é levar os fiéis aos diversos estágios de adoração com transição suave e racional, entre um momento e o seguinte. É nesse sentido que o momento de “louvor” torna-se, para muitos, uma verdadeira “hora da tortura”. É verdade que muitos participam ativamente, mas são inconseqüentemente liderados por dirigentes que não colocaram o mínimo esforço na seleção e verificação do que seria cantado, e nem se preocuparam na adequação dos cânticos com o momento, ou local. Isso sem falar na existência de verdadeiras “trash gospel songs”, que não passariam no mais brando teste de qualidade musical, sob qualquer critério, mesmo o secular, não evangélico.

Em outras palavras, a tônica atual é de espontaneidade, como se espontaneidade fosse sinônimo de “espiritualidade”. Nem a rigidez estéril e cadavérica é “espiritual” nem a aleatoriedade desregrada.  A ênfase bíblica nos levará mais para uma liturgia planejada e estruturada de adoração a Deus, do que um desenvolvimento aberto, definido “na hora”. Mas, nos dias de hoje, o momento de louvor é levado como se fosse uma hora independente de “vale tudo” divorciado dos demais aspectos do culto. Reconhecemos que, às vezes, pastores e líderes criteriosos se preocupam com as palavras dos cânticos. Isso é bom e necessário, mas não é o suficiente. Quem está fazendo a seleção e a adequação dos ritmos (não me refiro a banir marcação rítmica, pura e simplesmente, como já qualifiquei acima)? Quem está preocupado com a qualidade musical? Quem está selecionando os cantores (normalmente, canta quem quer ou se auto-impõe, quer tenha voz, quer não)? Quem está orientando os líderes da “hora do louvor” para que sejam líderes de cânticos (se têm competência para tal) e não fontes de sermões, puxões de orelha em irmãos de cabeça branca, ou passíveis de arroubos “espirituais” que, em muitas ocasiões, contradizem todos os ditames doutrinários da denominação que os abriga? Quem tem a mão no botão de controle do volume? É necessário que toda a congregação tenha de ficar refém e à mercê da sub-sensibilidade auditiva de alguns?

Acredito que podemos ser consideravelmente abrangentes na nossa aceitação de ritmos e melodias. Creio que podemos louvar a Deus de muitas maneiras e formas, expressando toda a variedade recebida dele, em nossa formação cultural e nacional. Mas louvor é coisa séria e essas questões acima não podem simplesmente ser ignoradas. Muitas igrejas não deixariam um pastor qualquer subir no seu púlpito e pregar um sermão aos fiéis. Exigem preparo, referência, anos de seminário, aprovação por um presbitério, tutores, orientadores, testes, etc. Mas escancaram as portas para o doutrinamento e a palavra de autoridade advinda de pessoas que podem até estar cheias de sinceridade, mas igualmente repletas de inexperiência e falta de preparo para orientarem doutrinariamente o povo de Deus.

Uma outra questão, que tem que ser aferida, é a utilização de músicas conhecidas com letras evangélicas. Sabemos que isso ocorre nos hinos, de uma forma geral. Por exemplo, nosso antigo hino: “Da linda pátria estou, bem longe…”é uma canção folclórica Norte Americana, bem como o Hino No. 113: “Achei um bom amigo”. Assim, muitos outros hinos nossos procedem do folclore de outras nações; a música Italiana “Sole Mio” já serviu para várias versões de hinos. Entretanto, quando a música utilizada é contemporânea demais, é impossíveldivorciar a letra original do que está sendo cantado. Por exemplo, já cantei várias vezes, em diversas igrejas, a letra de “glória, glória, aleluia…” com a música de“Asa branca”. “Casa” direitinho – a métrica é idêntica. Só que toda vez que canto só me lembro de “Asa Branca” e de Luiz Gonzaga. Dita o bom senso que essa situação não conduz à plena adoração. Só essa constatação bastaria para mostrar que não é sábio trasladar músicas contemporâneas, de outras canções, para cânticos eclesiásticos. Mas existe ainda uma falta de gosto total, de propriedade, de sabedoria e de avaliação do ridículo com transmutações na qual a associação é com ritmos e músicas que têm uma letra ou mensagem, às vezes, até imoral, sendo totalmente impossível o cântico sem a lembrança do original, corrompendo, em vez de edificar. Tal é o caso do “Segura o Tcham” que recebeu letra “evangélica”, na Bahia, como “Segura o Cão”. Parece brincadeira mas é verdade, ainda que tenha sido em uma “Igreja Universal”. Da forma como se encaminham as coisas, qualquer hora dessas essa moda chega no nosso meio.

Realmente, a questão de ritmos não é uma questão na qual a Bíblia legisla claramente. Cada um de nós, portanto, tem que formar a sua própria opinião, sempre procurando os valores maiores expressos na Palavra de Deus, em nossos relacionamentos pessoais, sem nunca esquecer a primazia da verdade clara sobre nossas conclusões pessoais. Por último, existe um outro aspecto de nossa liturgia que merece ser levantado. Alguém, em algum lugar, decidiu (e não extraiu da Palavra) que os cânticos não podem estar mesclados com os diversos passos da liturgia, mas devem ser cantados de uma só vez, na chamada “hora de louvor”. Mais sério ainda, alguém achou que só se pode louvar a Deus em cânticos se estivermos em pé. Apesar de já ter dobrado o cabo da boa esperança, não estou tão velho assim, mas confesso que é difícil e me canso de ficar em pé 20, 30, às vezes 45 minutos seguidos, entre tentativas de concentração de Louvar a Deus afastando os pensamentos pouco santos contra o inventor que me obrigou a tal tortura. Hinos podem ser cantados sentados; mas “cânticos espirituais”, só podem ser entoados de pé. Alguém sabe quem legislou isso? Mereceria termos uma palavrinha com ele…

Fonte: solanoportela.net


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Palestra apresentada à Associação Batista dos Músicos do Brasil

INTRODUÇÃO

Da palestra passada não se deve inferir que advogo uma Igreja alienada, ensimesmada, enfurnada em quatro paredes, cantando “somos um pequeno povo mui feliz” enquanto o mundo lá fora está rebentando por todas as juntas, numa frase de Sartre. Se o Programa de Educação Religiosa dá o cultuar a Deus como a primeira missão da Igreja, declara que a segunda missão é “anunciar as boas-novas”.

Vou usar o termo proclamação para esta segunda missão, que é a evangelização. É preciso também defini-la. É mais que pedir aos homens para aceitarem a Jesus como Salvador. Diga-se que esta construção de palavras, “aceitar Jesus como Salvador”, não consta do Novo Testamento. A chamada neotestamentária é para submeter-se a Cristo como Senhor.

A proclamação é o anúncio dos atos de Deus em Cristo. Paulo sintetizou isto de forma admirável em 2 Coríntios 5.19: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”. Foi isto que Deus fez em Cristo. É isto que a Igreja deve anunciar.

A missão da Igreja junto ao mundo é mais que promover a fraternidade entre os homens. Voltemos a Paulo, desta vez em 2 Coríntios 5.20: “…rogamo-vos, pois, por Cristo, que vos reconcilieis com Deus”. A Igreja chama o mundo a aceitar a reconciliação com Deus, proposta que ele já fez na pessoa de Jesus Cristo.

Juntemos as pontas até agora. A adoração é a missão primeira da Igreja em termos gerais,. É a linha vertical da missão da Igreja. A proclamação é a missão segunda da Igreja em termos gerais, mas é a primeira na linha horizontal, na direção do mundo. Vertical e horizontal fazem a cruz, que tem estas duas linhas. Se faltar uma delas, a cruz não existe. A Igreja é uma comunidade profundamente marcada pela cruz. É ela uma comunidade marcada pelas linhas horizontal e vertical. Sua missão tem também uma dimensão horizontal e outra vertical. Se ela viver enclausurada em adoração, só na dimensão vertical, isso pouco ajudará ao mundo. Se se dirigir ao mundo (a dimensão horizontal) sem o poder que a comunhão com Deus pela adoração outorga ao homem, isso será uma missão fadada ao fracasso. Só uma Igreja que vive na presença de Deus conseguirá mostrar Deus ao mundo. Como comunidade marcada pela cruz, a Igreja se dirige a Deus e ao mundo. Tem uma missão vertical e uma horizontal. Ela adora a Deus, sua razão primeira de ser. Ela proclama a reconciliação aos homens, conseqüência do seu conhecimento de Deus.

1. A Relação Igreja e Mundo

Já vimos a relação entre a Igreja e Deus, na preleção passada. Veremos agora a relação entre a Igreja e o mundo. Ela está no mundo, mas não se mancomuna com ele. Vive numa tensão, estar, mas não ser. está aqui, mas não é daqui. E está aqui com uma missão, que chamei de missão horizontal: a de proclamar o evangelho. Duas questões devem ser aqui levantadas. A primeira é o que entendemos por evangelho. É evidente que aqui não me refiro ao estilo literário encontrado na Bíblia, mas ao seu conteúdo. A segunda é o que entendemos por proclamação.

2. O Conteúdo do Evangelho

O conteúdo do evangelho pode ser deduzido desta declaração do Pacto de Lausanne, ao falar sobre o que é evangelizar: Evangelizar é difundir as boas novas de que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou segundo as Escrituras, e de que, como Senhor e Rei, ele agora oferece o perdão dos pecados e o dom libertador do Espírito a todos que se arrependem e crêem. A definição é sobre o que é evangelizar, mas caracteriza bem o conteúdo do evangelho. E mostra o que é proclamação. A encarnação de Deus em Cristo, sua morte vicária, sua ressurreição, o perdão oferecido e o Espírito que é dado aos arrependidos que crêem. Proclamar as boas-novas é dizer isto.

Por que comecei com algo tão óbvio? Acho que meu raciocínio é muito cartesiano e por isso gosto de começar do mais elementar para construir a argumentação. Mas é que há hoje muita proclamação equivocada, oferecendo riqueza, cura, apoio da parte de Deus, mas sem falar em necessidade de arrependimento, de perdão de pecados, da morte de Cristo na cruz. Dirá alguém: “Ótimo, diga isso aos pregadores”. Ah, sim, sempre digo. Mas devo dizer também aos músicos que usam um instrumento tão poderoso como a música para a proclamação. O conteúdo de nossos hinos e de nossos cultos deve realçar fortemente um conceito correto do evangelho. O que me prendeu primeiro à Igreja foi a música. Quando entrei pela primeira vez numa igreja evangélica, ouvi o coro cantar dois hinos: “Eis vede que o Cordeiro de Deus sobre a cruz morreu em meu e em teu lugar” e “No Monte das Oliveiras Jesus orou dizendo..”. Não entendi completamente a mensagem pregada porque não dispunha de capacidade para acompanhar um discurso religioso por meia hora. Faltavam-me os elementos para fazer as conexões mentais necessárias. Entendi que tratou de algo que eu não tinha e de que precisava, por isso voltei nos domingos seguintes e volto até o dia de hoje, mais de trinta anos depois. Mas a música, com sua facilidade de comunicar uma mensagem, de repetir refrães, ficou na minha mente. O que me alcançou primeiro foi a mensagem correta dos hinos que ouvi. Depois, a mensagem correta da Palavra, que o Pr. Falcão Sobrinho sempre pregou, que me alcançou. Aliás, até hoje, meu conteúdo teológico é pietista, o que herdei dele.

O que estou dizendo é da extrema necessidade de teologia correta em nossos cânticos e de comunicação eficiente nas nossas letras. A Igreja não deve apenas pregar uma mensagem ortodoxa, mas deve cantar também hinos ortodoxos. Num culto de proclamação, os hinos não são para amolecer os corações ou para criar um clima emotivo. Os hinos devem comunicar uma mensagem. Creio que todos já tivemos a experiência de uma audição ou cantata apresentada por um coro ou um culto musical, e depois, quando feito o apelo, sucederam várias decisões. A música não é um apêndice ou um componente da proclamação. Ela também proclama e isso deve ser levado em conta, no tocante ao conteúdo e à escolha dos hinos. A Igreja não apenas prega para o mundo, ela também canta para o mundo. E, por vezes, o mundo ouve mais o que a Igreja canta do que o ela prega.

Acho que isso nos abre um leque para algumas considerações.

3. O Conceito de Proclamação

Já deixei antecipado alguma coisa sobre a proclamação no tópico anterior. Nem sempre se separam bem os argumentos. Vou começar aqui com uma história triste, que deveria ser engraçada. Ou engraçada, que deveria ser triste. A ótica vai ser sua. Dizia-me um seminarista, filho de pastor, que na igreja do seu pai, a linha dos sermões era bem definida. De manhã, sermão era doutrinário. O pastor falava mal dos pentecostais. À noite, sermão era evangelístico. O pastor falava mal dos católicos. Tirando o exagero da história, fica a pergunta: existe esta linha tão bem definida, de que o culto evangelístico é para os não crentes? Quando se pensa assim, a proclamação passa a ser uma recitação de frases feitas, tipo “Deus te ama”, “Jesus salva”, “Vem agora porque um ônibus pode te atropelar na saída do culto e amanhã será muito tarde”, etc. Um conteúdo banal e irrelevante, no sentido de acréscimo à vida dos crentes.

Volto ao Programa de Educação Religiosa. Ele é como a Constituição: tem valor, mas poucos o conhecem. Diz ele sobre o anúncio das boas-novas (que estou chamando de proclamação): Anunciar o evangelho significa comunicar tudo o que Deus fez através de Jesus Cristo para a salvação do ser humano. É colocar as pessoas frente a frente com as boas-novas da redenção outorgada por Deus por meio de Cristo. É a evangelização. E, na seqüência imediata, para o que chamo a sua atenção, o seguinte: Não é somente anunciar as boas-novas aos incrédulos, mas também ajudar os crentes a dissiparem suas dúvidas, até que todos cheguem “à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Efésios 4.13).

A proclamação não é recitação de chavões, mas é o ensino da teologia da salvação, o que os teólogos, pomposamente chamam de soteriologia. Um culto de proclamação não apenas coloca os não crentes diante da graça de Deus oferecida em Cristo, mas firma no crente suas convicções sobre sua decisão, ajuda a aumentar seu conhecimento sobre a obra de Cristo, dá mais elementos para sua capacitação no testemunho.

Vejamos o papel da música aqui. É evidente que, para pessoas sem conhecimento do evangelho, sem elementos evangélicos em sua mente, a letra deverá ser simples (o que não significa ser banal ou fraca) e comunicar alguma coisa. Sem apedrejar ninguém: fui pregar num culto jovem, com propósito de evangelizar jovens. Cantamos apenas corinhos. Mas o ritmo se sobrepunha à letra. Era tão agitado e tão instrumental (no sentido de que os instrumentos apareciam mais que a mensagem) que nada comunicava. Não se ouvia a letra, mas apenas os instrumentos. E a letra se perdia num ritmo muito rápido, não podendo ser assimilada. Quando chegou a hora da pregação, defrontei-me com um auditório cansado, agitado, mas sem nenhum elemento evangélico assimilado. Os jovens estavam muito bem intencionados, mas mal orientados. A música evangélica, naquela noite, não pregou, e serviu para cansar. Pareceu-me, até, que atrapalhou. A reflexão que o sermão poderia trazer se perdeu porque o auditório estava excitado e sem condições de pensar.

A proclamação deve ser compreensível. Não é apenas o sermão, mas os hinos. Deve haver compatibilidade entre letra e música. Se o ritmo não favorece a mensagem comunicada pela letra, haverá prejuízo. Deve haver, também, compatibilidade entre ritmo e propósito. Quando estudei Publicidade, um dos pontos que me foram mostrados foi o uso da música para vender. Observem que em supermercado a música não é lenta, para favorecer a reflexão. É agitada exatamente para que as pessoas não pensem e ajam sob a influência de cores, formas, luzes e exposição de objetos. É para induzir à compra. Há uma música para supermercado. Há uma música para um restaurante de luxo, com jantar à luz de velas, onde o desejo é que o casal tome um champanhe, que é mais caro que uma cerveja. O ritmo funk num restaurante de luxo, freqüentado por pessoas abonadas, frustrará o propósito do restaurante. Não se consumirá.

Não estamos querendo manipular pessoas, mas querendo mostrar que há um poder na música que as pessoas nem sempre relevam. Para mim aqui reside o grande problema. Seja por pressão, seja para manter os jovens aquietados, boa parte dos pastores está deixando a música na Igreja nas mãos de moços bem intencionados, mas desconhecedores do poder da música, dos estilos e a sua relação com os tipos de mensagens, de teologia (quanta barbaridade se canta por aí) e de português (Camões teria um ataque apoplético se entrasse em algumas de nossas igrejas).

A música proclama através de uma teologia correta, de uma adequação entre mensagem e veículo, ou seja, entre conteúdo e forma. Nestes pontos ela precisa ser muito bem ajustada.

Fugi um pouco da linha de pensamento. Voltemos a ela: a música comunica não apenas aos incrédulos, mas aos crentes. Para isso precisamos de hinos consistentes, que tragam uma mensagem com conteúdo. Não sou músico, mas sou pregador e dirijo cultos. Neste sentido, em minha ótica, quero dar como exemplo do que estou dizendo o hino 447, do HCC, “Mas Eu Sei em Quem Tenho Crido”. A letra é um testemunho admirável, consistente, de teologia correta, de vida cristã piedosa e casada com uma música adequada. É um hino que comunica ao não crente, e da mesma forma, é um alento extraordinário para o membro de Igreja. Da mesma forma, o hino 262. Observem nele uma teologia correta extremamente contextualizada, porque trata da angústia do homem moderno, de solidão, de medo do futuro. Vejam que a música é muito bem encaixada porque induz à reflexão. Imaginem, agora, uma letra desta, reflexiva, induzindo à auto-análise, acoplada um ritmo agitado. Observe também que, além de evangelístico, de proclamar, o hino é confortador. Sua mensagem trata de realidades que nós, membros de Igreja, também enfrentamos.

Uma síntese deste ponto: proclamação não é chavão. Alcança também o convertido. E o casamento letra e música e indispensável para alcançar o propósito de comunicar.

4. Uma Questão Necessária: A Forma.

Ao encerrar o primeiro ponto disse eu que aquilo nos abria um leque. Um dos grandes problemas hoje é a forma. Em alguns momentos, ela é sobreposta ao conteúdo. O ritmo fala mais alto que a letra. Qual é a forma correta?

Voltemos ao que citei na ocasião: A música não é um apêndice ou um componente da proclamação. Ela também proclama e isso deve ser levado em conta, no tocante ao conteúdo e à escolha dos hinos. A Igreja não apenas prega para o mundo, ela também canta para o mundo. É preciso distinguir bem entre o que nos comunica e o que comunica ao mundo. Creio que acontece com os músicos batistas o mesmo que acontece com os pregadores saídos de seminários. Saímos com uma fraseologia, com um tecnicismo que pode ser bom ou desastroso, com uma determinada visão até mesmo elitista.

“O processo soteriológico tem sua gênese concretizatória no drama do Calvário” significa isso: o plano de salvação culminou na cruz. Vou mexer em vespeiros, mas vamos lá. Conto com sua misericórdia. Para nosso povão, o que significa boa parte da música sacra clássica? Podem até achar interessante, mas quanto comunicará? Contava um professor de Homilética de um pregador enfiado num terno preto, com colete e tudo, Bíblia na mão, pregando numa favela do Rio: “Ó vós que passais e me ouvis a prédica”. E dizia o professor: “Vós, coisa nenhuma. Meia dúzia de gatos pingados, de sandália de dedo, bermuda e sem camisa. É tu, você, ô cara”. Descontado o aspecto cômico, há verdade aí.

Passei por algo semelhante quando pastoreava no interior de S. Paulo. Num culto em Jaú, na Fazenda Barro Vermelho, dos Almeida Prado, não pude pregar. Inflamação das amígdalas. Minha esposa contou história para os ouvintes, com flanelógrafo e figuras. Acabado o culto, disse-me um dos bóia-frias: “Pastor, num prega mais pra nós, não. Quando o senhor fala nós num entende nada. Quando sua muié fala, nós entende tudo. Deixa ela pregar”. Era o meu tecniquês teológico o grande obstáculo. E eu pensava que estava abafando.

O que o mundo a quem estamos proclamando, canta? Conheço igrejas indígenas. Não sei quanto o “Dai Louvor”, de Mendelsohn, significará para elas. Talvez pouco. Mas sei que músicas no seu alcance cultural significará muito. E se alguém pensa que isso significa tambores, tantãs, barulho infernal, danças, está equivocado. O ritmo, das igrejas que conheço, é até lento. Mas comunica-lhes porque é na sua cultura. A mim, enfada. A eles, fala muito.

Não vou ensinar missa ao vigário, mas os irmãos sabem muito bem que boa parcela de nossas músicas sacras foi importada de outra cultura e aqui sacralizada por seu casamento com uma letra evangélica. Para nós, acostumados com o cenário evangélico, há muita comunicação. Para outros, não. Um padre, que se convertera ao evangelho em Brasília, conversando comigo uma vez disse: “É impressionante como os hinos evangélicos refletem a cultura musical americana. Se fechar os olhos e ignorar a letra, posso pensar que estou no Meio-Oeste norte-americano”. Se há uma coisa pela qual me bato é pela teologia tupiniquim, pela eclesiologia tupiniquim, pela música tupiniquim. Dirá alguém que a teologia, por ser bíblica, é uma só, universal. A declaração não reflete a realidade e não penetra na profundidade das coisas. Temos livros sobre aconselhamento pastoral, sobre ética e sobre eclesiologia que mostram um enorme desconhecimento do que seja nossa realidade. Nossa própria formação teológica, nossa estrutura de seminários, é de países ricos e não de país pobre. Sou favor de uma ampla tupiniquinização batista, sem xenofobia, mas tupiniquinização, sim.

Devemos proclamar em nossa cultura, em nosso contexto, em nossa linguagem, em nossa musicalidade, tendo discernimento espiritual (temos o Espírito Santo) sobre o que fazer e o que não fazer.

À guisa de conclusão

Cada vez que relia esta palestra, mais a sentia incompleta. Fiquei um pouco aflito porque notava que falta algo para dizer. Mas consegui me entender (tarefa um pouco difícil). Receei-me de dizer aquilo que os irmãos já sabem e sabem melhor do que eu, na sua área. E estou falando de matéria atinente à sua área. Precisava apenas acrescentar minha ótica, a ótica pastoral. Depois de reler mais de uma vez, achei que tinha dito o que deveria ter dito. A questão, a partir daqui, é ajuntar a sua bagagem cultural na área de música com minhas reflexões pastorais. Somando as duas partes, pensar um pouco e verificar como a música pode ser mais bem empregada na proclamação. Aí creio que chegaremos a algum ponto.


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A presente pesquisa teve início a partir de duas experiências concretas vividas pela autora: sua participação na comissão do Hinário para o Culto Cristão e a dificuldade de seu filho de achar músicas sacras contemporâneas neste hinário. Ao participar das reuniões realizadas em nível nacional para a organização do HCC, a autora começou a ter mais intimidade com os assuntos pertinentes à hinologia e a se preocupar com algumas questões novas para ela mesma. Entre essas, muitas tinham a ver com a metodologia do próprio trabalho relacionado ao hinário: coletar cantos, buscar fontes, fazer pesquisas junto a pessoas, formar comitês. Outras indagações tinham ligação com os procedimentos referentes à seleção dos cantos para hinários. Essa a principal indagação da autora: que critérios devem ser adotados quando se quer selecionar hinos para hinários e cultos?

A esse questionamento acrescentou-se o problema de seu filho, que, transformado em pergunta, seria: como selecionar cantos relevantes para a geração atual? Partindo dessas duas indagações, a autora optou por buscar uma resposta na história da música sacra cristã. Percebeu logo que um elemento constante nesta história, e que está estreitamente relacionado com a questão da seleção de cantos para o culto, é a tensão entre tradição e contemporaneidade. As pessoas responsáveis pela música nos cultos cristãos sempre se houveram com essa tensão e a resolveram de uma forma ou de outra. Foi a partir de tal observação que a autora decidiu pesquisar a tensão entre tradição e contemporaneidade, ao longo da história da música sacra ocidental, com o intuito de extrair critérios comprovados para a seleção de cantos para o culto cristão dos dias atuais.

No sexto capítulo concentra-se a “essência” do resultado da pesquisa ou, se caso se pudesse falar em termos “musicais”, o “ápice” da obra, onde se queria chegar. Uma vez levantados os fatos históricos, a autora pôs-se a analisá-los, querendo extrair deles os critérios de seleção de cantos para o culto cristão, que são os seguintes: a) a seleção dos cantos deve orientar-se pelo povo; b) a comunidade deve possuir uma teologia do culto; c) a comunidade deve respeitar suas raízes históricas, buscando sua identidade; d) a seleção de cantos deve visar o ensino e a solidificação das doutrinas; e) a seleção de cantos deve adequar-se à liturgia; f) a seleção deve priorizar cantos que falem à alma; e g) a seleção de cantos deve visar a estética do culto. Em virtude de esse capítulo ter sido uma grande conclusão da leitura da história, com considerações teológico-musicais e outras pessoais da autora, esta conclusão não será extensa. O objetivo aqui é traduzir aquilo que foi exposto nesse último capítulo em orientações úteis àqueles que hoje lidam com seleção de cantos em comunidades cristãs, mormente as brasileiras.

O primeiro critério de seleção, que busca adequação ao povo e contextualiza a sua linguagem, deve ser também o principal, sem o qual os demais não podem existir. Como pistas para os que desejam melhor compreender este critério, seguem-se algumas perguntas que podem ser feitas, diante da escolha de cantos: esse canto tem uma estrutura que o torna compreensível, em termos de música, é facilmente memorizável pelo povo?; que recursos melódico-harmônicos estão sendo usados para que ele tenha estas características?; suas frases musicais são lógicas e coerentes entre si, dando-lhe uma estrutura equilibrada?; as extensões da voz são razoáveis em relação à tessitura das vozes médias da congregação, sem intervalos grandes e difíceis?; ao ser apresentado, o tom escolhido é alcançável pela maioria?; a linguagem do texto é acessível ao povo, sem se tornar vulgar, e existiu preocupação com a prosódia?; existe poesia?; a apresentação gráfica do mesmo, quer na partitura musical, quer no retroprojetor, quer em programas impressos, está clara e legível, e a letra não contém erros ortográficos ou gramaticais? Estas são algumas perguntas que, se respondidas afirmativamente, ajudam na averiguação do critério de que “o canto deve adequar-se ao povo”.

O segundo critério: “a comunidade deve possuir uma teologia do culto” ajuda na seleção dos cantos, principalmente se prioriza três tendências básicas: a teologia querigmática, a koinoníaca e a litúrgicaQuando expressa a teologia querigmática, o texto do canto dá prioridade à comunicação da mensagem do evangelho. A comunicação efetiva desta mensagem deve ser a questão primordial do texto “querigmático”. Servem bem como exemplos os textos retirados diretamente da Bíblia e aqueles com instruções doutrinárias. Quando a comunidade elege uma teologia que enfatiza a comunhão entre os irmãos, então os cantos que favorecem esse tema podem ser inseridos. Esses cantos, contudo, não são apropriados em situações em que o grupo mal se conhece ou está reunido pela primeira vez. Não é possível cantar aquilo que não se vive. É por essa razão que, antes de falar em cantos da teologia koinoníaca, falou-se da necessidade de a comunidade aceitar, como “norma” de vida eclesiástica, a teologia da comunhão. A teologia litúrgica destaca a adoração a Deus e a música serve bem a esse propósito. Alguns Salmos ajustam-se perfeitamente aqui, bem como todos os cantos doxológicos. A riqueza da escolha poderia se basear no bom equilíbrio entre as três teologias do culto.

Para lidar com o critério de que “a comunidade deve respeitar suas raízes históricas, buscando sua identidade”, vale lembrar que tradição litúrgica e tradição hinódica estão estreitamente ligadas. Existem hinos antigos que, por seu valor histórico, já foram incorporados ao “repertório” sacro, constituindo-se bandeiras de movimentos. Muitas denominações tornaram-se conhecidas pelo tipo dos cantos que adotaram. O canto confere identidade ao grupo, e os que ignoram isso e abandonam a tradição hinódica perdem suas marcas distintivas. A Igreja Católica Romana compreendeu isso e há muito tem retido o canto gregoriano, que é um legado que remonta à Idade Média, mas que ainda hoje lhe dá uma identidade singular. Da mesma maneira agiram os que se preocuparam em retomar a história de sua igreja e empreenderam largos esforços para resgatar tradições litúrgicas e hinódicas no tempo. Se existem os cantos peculiares a cada segmento cristão, existem também cantos “universais”, que podem se entoados pela cristandade em geral. Os centros ecumênicos têm fomentado esse tipo de hinodia e têm sido felizes na manutenção da tradição cristã. Para os que estão incumbidos da tarefa de escolha de cantos, aconselhar-se-ia o estudo daquilo que pertence ao acervo de sua denominação, procurando destilar o que é mais representativo, que foi aprovado pelo tempo e que muitas gerações vêm cantando seguidamente. Estes cantos devem ser mantidos, porque ajudam a preservar a identidade do grupo. Por outro lado, convém pesquisar os textos utilizados em encontros ecumênicos e que podem ser cantados por todos, pois, por suas qualidades universais, unem os cristãos.

O poder persuasivo que a música tem é usado no comércio como uma arma eficiente para seus fins. Quem nunca se flagrou cantando algo que a televisão está a todo momento colocando no ar? A igreja não pode dispensar esse recurso ou ignorar seus efeitos; por isso, quanto à escolha de cantos para o culto cristão, sugere-se o critério de que “a seleção de cantos deve visar o ensino e a solidificação das doutrinas”. Não foi sem fundamentação que muitos temeram mais os hinos de Lutero do que seus arrazoados teológicos: eles serviram para a solidificação das doutrinas evangélicas recém implantadas. Ensinaram às crianças a catequese mais elementar, fortaleceram os jovens na doutrina cristã e deram segurança de sua fé aos mais adultos. Na era do racionalismo, a igreja cristã temeu os hinários que estavam “camuflando” conceitos essenciais sobre o evangelho, em razão de conhecer o valor do canto para o ensino. Foram considerados “hinário incrédulos” aqueles que não apresentavam claramente os pontos doutrinários cristãos mais relevantes, e muitos se levantaram contra eles. As palavras musicadas fluem com mais facilidade e por isso mesmo os conceitos veiculados musicalmente são melhor captados. Enganam-se os que julgam que a palavra falada é a que fica gravada mais tempo na memória. Ao contrário, em face das mudanças drásticas e extremamente rápidas vivenciadas pelo mundo de hoje, mais a igreja precisa adequar-se a ele, modernizando os seus meios de comunicação. A música tem esse poder de transformar palavras e mensagens, “aplainando” a aridez de algumas, reforçando a beleza de outras e transmitindo conteúdos que serão mais facilmente retidos.

Nas igrejas de tradição litúrgica, como na Católica, Luterana e Anglicana, em que a ordem do culto é fixa, os cantos podem ajustar-se à liturgia mais facilmente. Conhecer bem as práticas litúrgicas de sua igreja é o primeiro passo para quem se dispõe a escolher os cantos. Seria aconselhável conhecer a história do grupo e seus antecedentes para melhor aplicar o critério de que “a seleção de cantos deve adequar-se à liturgia”. Mais que isso, a pessoa deveria especializar-se em liturgia. A autora reconhece a dificuldade que igrejas de tradição não-litúrgica têm para a aplicação deste critério, mas sugere que a escolha tenha alguma coerência com o tipo de culto da comunidade. Muitas igrejas protestantes livres seguem o modelo das igrejas de missão, que se baseiam em Isaías 6 para determinar as partes do culto. Seguindo essa ordem, o culto teria as seguintes partes: adoração, confissão, perdão, mensagem e consagração. Essas seções amparam as escolhas do canto. O culto de tradição “homilética”, embora aqui as escolhas de cantos tendam a ser repetitivas, também dá orientação aos que atuam nessa área. O trabalho consistiria em saber, com a máxima antecedência possível, o tema do sermão, com base no qual seria feita a seleção de músicas para o culto. Aos que têm uma ordem completamente livre, restaria o conselho paulino de fazer-se tudo “com decência e ordem”.

Para a aplicação do sexto critério de que “a seleção deve priorizar cantos que falem à alma” é necessário distinguir cantos com emoção de cantos sentimentais. As palavras na língua grega para designar alma(psyche, nous archepous) contêm conotações que se autocomplementam e podem ajudar na compreensão do sentido da palavra emoção em português. Quando se fala a respeito de cantos com emoção, tem-se em mente sobretudo aqueles que “abalam” a alma, mexem dentro do coração, dissipando maus sentimentos e modificando, para o bem, o interior da pessoa. Podem ser considerados como tais os cantos que dão vida ao culto (não são necessariamente os mais animados ou os cantados mais rapidamente), os que trazem vigor, alento, que motivam transformações pessoais, levando o cristão a buscar um melhor relacionamento com Deus e a uma vida cristã mais exemplar. Outrossim, com vistas ao caráter educativo, caberia aos líderes escolherem, entre os cantos disponíveis, apenas aqueles que dão vida ao culto e cujas qualidades poéticas são inquestionáveis. O texto selecionado deve ser impecavelmente elaborado, sentindo-se que houve preocupação literária na sua confecção. Textos mal formulados revelam uma liderança desatenta. Ao aplicar este critério, a pessoa não pode confundir cantos com emoção com os cantos sentimentais, piegas, forjados, muitas vezes artificialmente, para provocar reações do tipo sentimentalista. Estes cantos, quando muito, poderão provocar reações imediatistas de choro, mas não acarretarão as transformações interiores que, quando verdadeiramente sentidas e acatadas, se traduzem em atos legítimos em favor do próximo e em contrição para com Deus.

Os que estão envolvidos com a seleção de cantos para o culto cristão deveriam ser os que mais almejam aprofundar seu conhecimento acerca de música e das artes em geral. Só assim estarão aptos para aplicar o critério de que “a seleção de cantos deve visar a estética do culto”. A boa estética do culto é conseguida através da conjugação de vários elementos. O espaço litúrgico, os utensílios e o canto, se esteticamente casados, produzem bem-estar. Foi o documento Snowbird, formulado por católicos de fala inglesa, que estimulou as congregações a permitirem o belo na liturgia. Segundo esse documento, a beleza é o sinal de Deus no mundo. A autora julga que só através do conhecimento da música e de disciplinas afins é que a pessoa terá condições de avaliar um canto quanto ao seu valor estético. Caso contrário, o que predominará são palpites pessoais sem fundamentação alguma.

Um grande anelo particular da autora seria ver a produção musical sacra brasileira disseminada em todos os segmentos denominacionais cristãos do país. Através da divulgação dos conceitos adquiridos durante a realização desta pesquisa, a autora poderia cooperar no sentido de conscientizar os líderes para a importância de se ter critérios de seleção para o canto do culto cristão, seja em congressos ou em cursos específicos sobre música sacra. Talvez pudesse levar os diversos institutos de música sacra espalhados pelo Brasil a rever parte de suas disciplinas, para possibilitar aos alunos um melhor treinamento quanto à escolha dos cantos para o culto. O papel dos líderes é relevante para o crescimento da qualidade dos cantos nas igrejas. Foi visto, no decorrer da pesquisa, o quanto a influência da liderança pode ser negativa ou positiva na escolha dos cantos para o culto cristão. Esse aspecto despontou logo na pesquisa social empreendida pela autora. Ficou ali evidenciado o poder de influência de um líder. Ao estudar, no capítulo 3, a Reforma, o problema veio mais fortemente à tona, sobretudo se se comparam as atuações de Lutero, Calvino e Zwínglio nessa área. Para se chegar a mudanças significativas no panorama brasileiro, a autora acredita que a conscientização teria de começar pela liderança que está sendo treinada nos diversos cursos de música sacra no país, em geral voltados para jovens que se sentem chamados a exercer o ministério de música nas igrejas.

Estudar a música brasileira, suas principais características, e orientar novos compositores seria outra tarefa a ser considerada para o futuro. A produção nacional tem ocorrido de maneira “aleatória”, através, principalmente, de empenhos pessoais muitas vezes destituídos de qualquer fundamentação. Se hoje grande parte daquilo que se ouve nas rádios e em outros canais de comunicação é tradução com baixa qualidade artístico-musical, isso deve-se ao despreparo e à falta de pessoas qualificadas que ajudem os compositores brasileiros na realização de uma obra esteticamente aceitável e autenticamente brasileira. É preciso ter “atalaias”, que não só denunciem estrangeirismos inaptos, mas que sobretudo sejam construtores de um novo fazer musical, com valorização das expressões genuinamente representativas dos anseios populares e que venham preencher as grandes lacunas existentes.

Há uma vasta lacuna a ser preenchida em termos de obras brasileiras com temas vitais para o evangelho, principalmente nas igrejas protestantes. Temas da Teologia da Libertação, poucos, é verdade, já têm sido explorados. A autora sente falta de músicas genuinamente brasileiras que falem da cruz e do sofrimento de Jesus, de sua ressurreição, da graça de Deus, do perdão de pecados que Deus concede, da comunhão entre os crentes, da solidariedade e do compartilhar. Não se encontram hinos sobre a vida diária, que convidem o crente a viver um evangelho exemplar, distribuindo o “Pão da vida”, que alimenta a alma, e o pão, produto do trigo, para o corpo. Onde estão os hinos para os sacramentos, como para o Batismo e a Eucaristia? E onde os para funerais e casamentos? São raros, tanto que, para casamentos, o que se usam são as músicas eruditas compostas por J. S. Bach, F. Haendel, F. Mendelssohn e R. Wagner, entre outros. Embora sejam belas e “cativantes”, a mensagem que passam é apenas emotiva, pois estão destituídas de um texto apropriado. E para o Batismo, seja o de crianças, seja o de adultos, o que se canta em solo brasileiro? Esses cantos são até numericamente inexpressivos, se consideradas as vezes que deles se precisa durante o ano eclesiástico. Para a Ceia do Senhor os cantos rareiam ainda mais. Urge revisar o acervo de cantos autenticamente brasileiros, sobretudo os que preencham as lacunas temáticas apontadas.

Alastraram-se sobremaneira os cantos doxológicos nas igrejas protestantes não-litúrgicas, em geral traduzidos da língua inglesa. Embora sejam muito importantes para o louvor no culto cristão, o fato de prestigiá-los em detrimento de outros cantos tem enfraquecido essas igrejas teológica e doutrinariamente.

A autora está convicta de que os sete critérios listados no sexto capítulo podem oferecer uma boa base metodológica de seleção de cantos para aqueles que trabalham com música sacra. Se usados para definir o acervo de um hinário, estarão ajudando a respectiva comissão a achar os cantos com maior facilidade e fundamentação adequada. Se usados diretamente por aqueles que estão à procura de cantos para o culto, servirão da mesma forma como aferidores justos e precisos, evitando esforços equivocados e poupando tempo.

Fonte: musicaeadoracao.com.br


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