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Solano Portela

Alguns anos atrás um jovem escreveu-me perguntando qual a minha opinião sobre a utilização de cânticos com ritmos mais acentuados, na liturgia, e sobre o período normalmente chamado de “louvor”, em nossas igrejas. Na realidade, a pergunta dele foi: “São todos os ritmos apropriados ao louvor, na igreja?”.

Para tratar dessa questão, eu poderia ter entrado no chamado “Princípio Regulador”, que descreve a orientação do culto reformado, no qual somente as coisas diretamente comandadas por Deus devem fazer parte da liturgia. Ocorre que, tomado literalmente, não existe uma única igreja nossa que se enquadre na interpretação mais rígida do “Princípio”, mesmo aquelas pastoreadas ou freqüentadas por seus mais ávidos proponentes. Até nas mais conservadoras encontramos o coro da Igreja, devidamente fardado sob o nosso escaldante calor tropical, entoando belos hinos ao Senhor – alguém pode me indicar onde isso está prescrito no Novo Testamento? Mesmo em nossas igrejas co-irmãs da Escócia – supostas praticantes coerentes do “princípio regulador”; aquelas que defendem que o Antigo Testamento não tem nada a nos dizer sobre a liturgia do Novo Testamento, que são contra a utilização de instrumentos musicais e onde somente os Salmos são entoados, não existe coerência. Os Salmos são cantados, porém com músicas e métricas geradas por mentes de cristãos que viveram milênios após a escrita dos textos bíblicos e as letras são adaptações, para se enquadrar na métrica. Isso sem falar que a tentativa é de uma liturgia neo-testamentária, que, na parte da música é totalmente dependente do Antigo Testamento – pois lá é que encontramos os Salmos. Nessas igrejas, todas as palavras dos Salmos devem ser cantadas com fervor, mas se encontramos aqueles trechos que falam dos instrumentos musicais temos que ignorar tanto o texto como a eles, e considerando-os parte de uma outra era – dá para perceber alguma incoerência nisso? Recorrer, portanto a um exame aprofundado, complexo e possivelmente infrutífero, na definição e aplicabilidade do “princípio regulador”, não responderia a questão, traria outras à tona e é uma reflexão necessária que tem que ser levada a cabo em outra arena. Preferi, portanto, responder o assunto dentro do direcionamento geral que temos nas escrituras e do senso comum que Deus nos concedeu, em vez de invocar nossas raízes históricas.

Quando procuramos na Palavra de Deus não encontramos restrição ou classificação intrínseca de ritmos, como existindo os que são “maus”, e os que são “bons”. Sei que inúmeros livros têm sido escrito, no campo evangélico, sobre as raízes malévolas de certos ritmos e é certo que os ritmos estimulam as pessoas a diferentes estados de espírito, mas permito-me desconfiar das conclusões supostamente científicas e das conexões traçadas por tais trabalhos. Na maioria das vezes temos apenas uma coletânea de opiniões pessoais e ilações infundadas. Às vezes, somos levados à dedução de que o único cântico admissível na igreja seria, preferencialmente, o gregoriano, de alguns séculos atrás, sem muita variação musical ou harmonia.

A realidade é que a Bíblia parece aceitar a utilização de ritmos na adoração. Com certeza existiam os Salmos “mais agitados” e os “mais lentos’. Independentemente de tratarmos de “liturgia do VT” ou “do NT”; do templo, da sinagoga ou da igreja primitiva, Deus permanece o mesmo e o seu agrado/desagrado não deve ter sido modificado na Nova Aliança. Assim, qualquer investigação sem idéias preconcebidas, verificará que instrumentos diversos e variados foram utilizados pelos fiéis e aceitos por Deus, na adoração de sua pessoa.

Como já frisamos, entretanto, independentemente da letra, existe uma empatia entre melodia e ritmo, e o estado de espírito provocado nos cantantes/adoradores. Ou seja, um ritmo agitado em uma hora de contrição é uma contradição de bom senso (algo há muito perdido em nossas igrejas). Não deveríamos precisar de uma profunda exposição teológica para substanciar isso. Um ritmo lento, ou em tom (clave) menor, numa ocasião de festa, de acampamento, por ocasião de uma caminhada, é também uma contradição de bom senso. Quando esse julgamento é quebrado, na igreja, faz-se também violência aos que estão sinceramente procurando adorar. O Salmo 33.3 nos orienta a cantar “com arte” (qualidade, propriedade, musicalidade, harmonia) e“com júbilo” (entusiasmo). Isso nos indica que intensa qualidade musical deve ser objetivada no louvor a Deus e, por outro lado, que é um erro equacionarmos espiritualidade, com um cântico “morto” destituído de entusiasmo, sem o envolvimento de todo o nosso ser.

A maioria dos Salmos possui títulos que grande parte dos eruditos bíblicos considera como sendo parte do texto original. Essa conclusão ocorre não somente porque se encontram nos manuscritos mais antigos, como também porque muitos estão incorporados ou intrinsecamente ligados ao texto, mas também porque outros livros bíblicos (Exs.: 2 Sm 22 e Habacuque 3) trazem tanto salmos como os seus títulos em seus textos inspirados. No livro dos Salmos, os títulos, muitas vezes, classificam aqueles cânticos quanto às diferentes ocasiões nas quais deveriam ser entoados. A indicação parece ser a de que existiam melodias e ritmos próprios para cada situação, por exemplo:“cântico de romagem [marcha]” (Salmo 120); “salmo didático, para cítara” (Salmo 53); “para instrumento de corda” (Salmo 4); “para flautas” (Salmo 5). Cada dirigente de música ou líder eclesiástico, em nossas igrejas, deveria levar essa questão em consideração utilizando a massa cinzenta que Deus lhes deu para discernir os ritmos apropriados e impedir aberrações na liturgia.

No que diz respeito à letra, as Escrituras dão considerável ênfase à linguagem dos cânticos. Em Efésios 5:19, a força da prescrição está na comunicação que os cânticos devem apresentar:  “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais”.

Ou seja, é totalmente destituído de valor o cântico no qual não existe concentração na letra, ou quando esta não reflete os ensinamentos da Palavra, ou quando é entoado mecanicamente, só pelo ritmo ou melodia. A passagem paralela, em Colossenses 3:16, também enfatiza o aspecto de comunicação eexortação através dos cânticos, sempre fundamentados na Palavra de Deus (ou, como traz o texto, na Palavra de Cristo): “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração”.  Não resta dúvida, pois, que as letras, ou as palavras, devem refletir os ensinamentos bíblicos e comunicar coisas inteligíveis aos participantes. Hinos, corinhos, cânticos que não comunicam ou que têm palavras antigas, anacrônicas, obsoletas, obscuras ou hebraismos / helenismos desconhecidos dos que cantam e/ou ouvem — fogem à característica bíblica da adoração, na qual a comunicação é parte importantíssima. Vale a pena, portanto, perguntarmos, será que todos sabem, mesmo, o que é El-Shadai? E o que deveríamos pensar do “…lá, lá, lá, lá…” tão freqüente nos cânticos contemporâneos? Estão comunicando o que?

O grande problema contemporâneo que encontramos, acredito, reside em dois pontos cruciais: (1) Um anacronismo enrustido de uns – esses acham que algo para ser bom, cristão e próprio tem que ser velho e maçante; (2) Uma ingenuidade gratuita de outros, que, se deixada ao bel-prazer, vira arrogância e descaso pelo bem estar espiritual dos demais irmãos. Esses demonstram desconsideração para com a sanidade estética, mental e auditiva dos fiéis. Esses ingênuos arrogantes, aceitam QUALQUER RÍTMO, desde que “cristianizado” ou “biblicizado” – como sendo legítimo e apropriado a qualquer hora. O mais aberrante é a mistura indiscriminada de ritmos, um atrás do outro, sem uma direção ou conceito maior de que o objetivo global é levar os fiéis aos diversos estágios de adoração com transição suave e racional, entre um momento e o seguinte. É nesse sentido que o momento de “louvor” torna-se, para muitos, uma verdadeira “hora da tortura”. É verdade que muitos participam ativamente, mas são inconseqüentemente liderados por dirigentes que não colocaram o mínimo esforço na seleção e verificação do que seria cantado, e nem se preocuparam na adequação dos cânticos com o momento, ou local. Isso sem falar na existência de verdadeiras “trash gospel songs”, que não passariam no mais brando teste de qualidade musical, sob qualquer critério, mesmo o secular, não evangélico.

Em outras palavras, a tônica atual é de espontaneidade, como se espontaneidade fosse sinônimo de “espiritualidade”. Nem a rigidez estéril e cadavérica é “espiritual” nem a aleatoriedade desregrada.  A ênfase bíblica nos levará mais para uma liturgia planejada e estruturada de adoração a Deus, do que um desenvolvimento aberto, definido “na hora”. Mas, nos dias de hoje, o momento de louvor é levado como se fosse uma hora independente de “vale tudo” divorciado dos demais aspectos do culto. Reconhecemos que, às vezes, pastores e líderes criteriosos se preocupam com as palavras dos cânticos. Isso é bom e necessário, mas não é o suficiente. Quem está fazendo a seleção e a adequação dos ritmos (não me refiro a banir marcação rítmica, pura e simplesmente, como já qualifiquei acima)? Quem está preocupado com a qualidade musical? Quem está selecionando os cantores (normalmente, canta quem quer ou se auto-impõe, quer tenha voz, quer não)? Quem está orientando os líderes da “hora do louvor” para que sejam líderes de cânticos (se têm competência para tal) e não fontes de sermões, puxões de orelha em irmãos de cabeça branca, ou passíveis de arroubos “espirituais” que, em muitas ocasiões, contradizem todos os ditames doutrinários da denominação que os abriga? Quem tem a mão no botão de controle do volume? É necessário que toda a congregação tenha de ficar refém e à mercê da sub-sensibilidade auditiva de alguns?

Acredito que podemos ser consideravelmente abrangentes na nossa aceitação de ritmos e melodias. Creio que podemos louvar a Deus de muitas maneiras e formas, expressando toda a variedade recebida dele, em nossa formação cultural e nacional. Mas louvor é coisa séria e essas questões acima não podem simplesmente ser ignoradas. Muitas igrejas não deixariam um pastor qualquer subir no seu púlpito e pregar um sermão aos fiéis. Exigem preparo, referência, anos de seminário, aprovação por um presbitério, tutores, orientadores, testes, etc. Mas escancaram as portas para o doutrinamento e a palavra de autoridade advinda de pessoas que podem até estar cheias de sinceridade, mas igualmente repletas de inexperiência e falta de preparo para orientarem doutrinariamente o povo de Deus.

Uma outra questão, que tem que ser aferida, é a utilização de músicas conhecidas com letras evangélicas. Sabemos que isso ocorre nos hinos, de uma forma geral. Por exemplo, nosso antigo hino: “Da linda pátria estou, bem longe…”é uma canção folclórica Norte Americana, bem como o Hino No. 113: “Achei um bom amigo”. Assim, muitos outros hinos nossos procedem do folclore de outras nações; a música Italiana “Sole Mio” já serviu para várias versões de hinos. Entretanto, quando a música utilizada é contemporânea demais, é impossíveldivorciar a letra original do que está sendo cantado. Por exemplo, já cantei várias vezes, em diversas igrejas, a letra de “glória, glória, aleluia…” com a música de“Asa branca”. “Casa” direitinho – a métrica é idêntica. Só que toda vez que canto só me lembro de “Asa Branca” e de Luiz Gonzaga. Dita o bom senso que essa situação não conduz à plena adoração. Só essa constatação bastaria para mostrar que não é sábio trasladar músicas contemporâneas, de outras canções, para cânticos eclesiásticos. Mas existe ainda uma falta de gosto total, de propriedade, de sabedoria e de avaliação do ridículo com transmutações na qual a associação é com ritmos e músicas que têm uma letra ou mensagem, às vezes, até imoral, sendo totalmente impossível o cântico sem a lembrança do original, corrompendo, em vez de edificar. Tal é o caso do “Segura o Tcham” que recebeu letra “evangélica”, na Bahia, como “Segura o Cão”. Parece brincadeira mas é verdade, ainda que tenha sido em uma “Igreja Universal”. Da forma como se encaminham as coisas, qualquer hora dessas essa moda chega no nosso meio.

Realmente, a questão de ritmos não é uma questão na qual a Bíblia legisla claramente. Cada um de nós, portanto, tem que formar a sua própria opinião, sempre procurando os valores maiores expressos na Palavra de Deus, em nossos relacionamentos pessoais, sem nunca esquecer a primazia da verdade clara sobre nossas conclusões pessoais. Por último, existe um outro aspecto de nossa liturgia que merece ser levantado. Alguém, em algum lugar, decidiu (e não extraiu da Palavra) que os cânticos não podem estar mesclados com os diversos passos da liturgia, mas devem ser cantados de uma só vez, na chamada “hora de louvor”. Mais sério ainda, alguém achou que só se pode louvar a Deus em cânticos se estivermos em pé. Apesar de já ter dobrado o cabo da boa esperança, não estou tão velho assim, mas confesso que é difícil e me canso de ficar em pé 20, 30, às vezes 45 minutos seguidos, entre tentativas de concentração de Louvar a Deus afastando os pensamentos pouco santos contra o inventor que me obrigou a tal tortura. Hinos podem ser cantados sentados; mas “cânticos espirituais”, só podem ser entoados de pé. Alguém sabe quem legislou isso? Mereceria termos uma palavrinha com ele…

Fonte: solanoportela.net


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Este post talvez seja um pouco mais técnico do que os habituais, mas achei interessante compartilhar esta ideia sobre a qual tenho pensado um bocado.

Toco bateria há pouco mais de quatorze anos. Toquei principalmente na igreja, com uma breve passagem pela banda do colégio e outra na faculdade da qual eventualmente saí. Não sou o baterista mais técnico que existe. Nunca sentei para estudar devidamente. A maioria do que sei, fui pegando de ouvido ao longo dos anos. Mas uma coisa que noto na maioria dos bateristas de igreja hoje é que não há uma preocupação de se tocar para a música. O que isso quer dizer? Vou exemplificar:

Quando meu amigo Mauricio Barbosa me chamou para gravar as baterias do CD do coral Geração Ação, Vitória da paixão, fiquei extasiado! Pensei: agora que finalmente vou poder colocar tocas minhas ideias num CD e poder dizer que sou um baterista de verdade! Entramos para gravar a primeira música e eu estava louco para mostrar tudo que poderia fazer naquela faixa. Não esqueço: “Cantarei a linda história de Jesus, meu Salvador.” Era num compasso de ¾. Assim que começou, ouvi o clique e mandei ver tentando encaixar todas as notas fantasmas possíveis e encaixando viradas e parou tudo. O Mauricio logo parou a gravação e disse: “Andrew, menos. Já tem coisa demais acontecendo na música.” Ou seja, ignorei tudo que estava acontecendo para tocar somente aquilo que eu queria tocar. Sem dar a mínima para o resto dos instrumentos. Foi uma baita lição…

Qual é o objetivo do músico de igreja? Do ministério de louvor? Temos que tocar para a música, que nesse caso serve a adoração da congregação. Ou seja, tocamos não para nós, mas para a congregação. Nosso papel alí é fornecer a base, o complemento ao que a congregação está fazendo, e não o contrário. Eles não estão cantando a música que nós tocamos. Nós tocamos seguindo aquilo que eles cantam. O foco é a adoração da congregação.

Tendo dito isso, quais são os estilos musicais que melhor se emprestam à adoração? Quais são os estilos que fornecem esse acompanhamento da melhor maneira possível? Não estou entrando em uma discussão sobre a existência de Ré maior santificado ou não. Eu pessoalmente acho que cada congregação deve se expressar conforme a sua cultura, independente do estilo, contanto que a congregação consiga louvar de coração.

Tendo dito isso, observo muitos dos músicos de igreja hoje em dia. Eu nunca fui um baterista muito rápido, mas sempre busquei tocar com dinâmica. Os músicos que vejo hoje são o extremo oposto. Encaixam viradas mirabolantes, rufos e toques duplos ou solos de guitarra com uma destreza incrível! Mas só sabem tocar em dois volumes: ligado e desligado. E quando acaba a música, fica um zumbido no meu ouvido. Ou seja, não ouvem o que está acontecendo ao redor deles. Pior, reclamam que o retorno está baixo e que precisam se ouvir melhor. Mas voltando para a música…

A música que tocamos na igreja deve servir de base para a congregação, ou seja, tocamos para um grupo de pessoas que, em sua grande maioria, não entende bulhufas de música. E eles não precisam entender. Nós músicos, porém, temos que nos preocupar com a base, o chão, o esqueleto do louvor. Temos que transformar a música que tocamos em algo que seja entendido pela congregação. Como fazer isso?

Todo músico provavelmente já ficou frustrado com a facilidade com que se toca alguns dos maiores sucessos das rádios. Milhões ouvem uma música que tem apenas três acordes ou uma batida bem básica. E se frustram porque a música não é “tudo aquilo que poderia ser”. Mas nesse caso, a música deles atende justamente ao propósito: todos tem que entendê-la e gostar, quem sabe até se identificar com ela. A música deve ser de fácil compreensão para que todos possam aproveitar. Isso é uma regra? Toda música popular é ruim? Não necessariamente, mas não é qualquer um que consegue ouvir um Miles Davis ou um Rush tranquilamente. Esse tipo de música é de uma digestão mais difícil.

Porém… toda boa música de louvor deve ter algo fácil de ser seguido. No caso da bateria, é mais fácil identificar. Mas não precisa ser a bateria. Pode ser um ritmo de guitarra que se repete ao longo da música ou uma frase de baixo que segura tudo junto. A música tem que ter uma continuidade, algo a ser seguido, algo no qual todos que ouvem possam confiar. Victor Wooten, um baixista fenomenal, explicou uma vez porque que todos odeiam o solo de baixo. Basicamente, ele diz, é que o baixista passa a música toda “groovando” (mantendo uma base de notas que se repetem de maneira ritmada) e as pessoas estão curtindo e dançando. Mas chega a hora do solo e ele para de “groovar”. E as pessoas ficam sem aquele chão. Com bateria, a mesma coisa. Adoro um solo de Dennis Chambers de vez em quando, mas do que adianta fritar a bateria toda se não há uma marcação constante para dançar e fazer o corpo mexer? Como é que aplico aquilo a uma música para outros, que não sejam bateristas, gostarem? Se o cara começa a quebrar o tempo e fazer coisas imprevisíveis, ele perde a minha confiança e paro de seguir. Fico só assistindo. Muito impressionado, mas aquilo não diz nada para mim.

Ou seja, deve haver algum tipo de pulsação central que segura tudo junto. Um exemplo que gosto bastant: “Seven days” do Sting. A música tem um compasso em 5/4, algo que não é normal para o ouvido do leigo. É um tempo esquisito, tem alguma coisa de estranho. Mas nessa música, o baterista, mestre Vinnie Collaiuta, mantém uma marcação constante no contra tempo (o hi-hat da bateria). O Sting pediu essa pulsação meio com cara de reggae justamente para dar o “chão” à música. A pulsação constante do contra tempo torna o compasso esquisito um pouco mais tolerável, pois há algo fácil de ser seguido, fica “digerível”, por assim dizer. Ouça abaixo. É interessante…

Esse conceito não é nada novo, e também não é restrito à música. Pense nos exércitos. Como é que os antigos generais conseguiam fazer com que todos marchassem em sincronia? Caixa! Tarol! Na frente, os “bateristas” da época mantinham a pulsação e o exército todo andava junto. Hitler também sabia disso. Diz a lenda que nos comícios nazistas, ele quase que hipnotizava todos. Seu poder de cativar era impressionante. Controlava aquela multidão toda com vários artifícios. Entre eles, grandes tambores, bumbos estrondosos que mantinham o batimento cardíaco de todos em sincronia constante. Loucura pura!

Vai pensando nas músicas mais chicletes da rádio. Tem o “four on the floor” (quatro no chão), o compasso em 4/4 com um bumbo batendo em todo tempo. Pensa na dance music, no rock, na música eletrônica e por aí vai. Tem um pulso reto e estável que segura tudo. Ouça 30 segundos e seu pé está batendo ou a cabeça quicando junto. É algo quase que instintivo. Um exemplo ótimo dessa batida é a seguinte música. No verso, o baterista basicamente só mantém o contra tempo e o bumbo nos quatro tempos. Parece até uma marcha (já pensou porque que os hinos antigos tem uma sensação de marcha?).

Qual é o barato da marcha? Dessa pulsação? Ela convoca todos a seguirem aquele ritmo. É algo estável que transmite confiança pois quem ouve sabe exatamente o que vai acontecer nos próximos X minutos de música. Por ter essa confiança, elas esquecem a música e se concentram em… quem diria?!? O louvor, a palavra cantada!! Já dizia C.S. Lewis:

“O bom calçado é aquele que você não nota. A boa leitura torna-se possível quando você não precisa pensar conscientemente sobre os olhos, a luz, a impressão, a pronúncia. O culto perfeito seria aquele que passasse praticamente despercebido; nossa atenção estaria voltada para Deus.”

Agora você pensa naquelas músicas que ouvimos em tantas igrejas cheias de quebradas e viradas e solos e “truques” completamente imprevisíveis. Quem não ensaiou junto com a banda fica perdidinho que só. Como é que essa pessoa consegue louvar se ela é constantemente interrompida pelos músicos? Podem ser músicos excelentes, mas eles mais atrapalham do que ajudam. Estão tocando para quem? Para quê?

Quem sabe não está faltando um pouco de humildade e submissão entre os músicos de igreja deixar de tocar um pouco para dar espaço para o louvor a Deus.

Só umas ponderações de um músico tentando tocar mais “para a música” e menos para si. Fica aqui uma das minhas músicas prediletas que demonstra lindamente o conceito que acabei de explicar e cuja mensagem é bem legal.

Fonte: O Blog do Andrew


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Querido Grupo de Louvor,

Eu aprecio muito a sua disponibilidade e desejo de oferecer seus dons a Deus em adoração. Aprecio sua devoção e celebro sua fidelidade — arrastando-se para a igreja cedo, domingo após domingo, separando tempo para ensaiar durante a semana, aprendendo e escrevendo novas canções, e tantas coisas mais. Assim como aqueles artistas e artesãos que Deus usou para criar o tabernáculo (Êxodo 36), vocês são dispostos a dispor seus dons artísticos a serviço do Deus Triuno.

Portanto, por favor, recebam esta pequena carta no espírito que ela carrega: como um encorajamento a refletir sobre a prática de “conduzir a adoração”. A mim parece que vocês frequentemente simplesmente optaram por uma prática sem serem encorajados a refletir em sua lógica, sua “razão de ser”. Em outras palavras, a mim parece que vocês são frequentemente recrutados a “conduzir a adoração” sem muita oportunidade de parar e refletir na natureza da “adoração” e o que significaria “conduzir”.

Especificamente, minha preocupação é que nós, a igreja, tenhamos involuntariamente encorajado vocês a simplesmente importar práticas musicais para a adoração cristã que — ainda que elas possam ser apropriadas em outro lugar — sejam prejudiciais à adoração congregacional. Mais enfaticamente, usando a linguagem que eu empreguei primeiramente em Desiring the Kingdom¹, às vezes me preocupo de que tenhamos involuntariamente encorajado vocês a importar certas formas de execução que são, efetivamente, “liturgias seculares” e não apenas “métodos” neutros. Sem perceber, as práticas dominantes de execução nos treinam a relacionar com a música (e os músicos) de certa maneira: como algo para o nosso prazer, como entretenimento, como uma experiência predominantemente passiva. A função e o objetivo da música nestas “liturgias seculares” é bem diferente da função e o objetivo da música na adoração cristã.

Então deixe-me oferecer apenas alguns breves conceitos com a esperança de encorajar uma nova reflexão na prática da “condução da adoração”:

1. Se nós, a congregação, não conseguimos ouvir a nós mesmos, não é adoração. A adoração cristã não é um concerto. Em um concerto (uma particular “forma de execução”), nós frequentemente esperamos ser sobrepujados pelo som, particularmente em certos estilos de música. Em um concerto, nós acabamos esperando aquele estranho tipo de privação dos sentidos que acontece com a sobrecarga sensorial, quando o golpe do grave em nosso peito e o fluir da música sobre a multidão nos deixa com a sensação de uma certa vertigem auditiva. E não há nada de errado com concertos! Só que a adoração cristã não é um concerto. A adoração cristã é uma prática coletiva, pública e congregacional — e o som e a harmonia reunidos de uma congregação cantando em uníssono é essencial à prática da adoração. É uma maneira “desempenhar” a realidade de que, em Cristo, nós somos um corpo. Mas isso requer que nós na verdade sejamos capazes de ouvir a nós mesmos, e ouvir nossas irmãs e irmãos cantando ao nosso lado. Quando o som ampliado do grupo de louvor sobrepuja às vozes congregacionais, não podemos ouvir a nós mesmos cantando — então perdemos aquele aspecto de comunhão da congregação e somos encorajados a efetivamente nos tornarmos adoradores “privados” e passivos.

2. Se nós, a congregação, não podemos cantar juntos, não é adoração. Em outras formas de execução musical, os músicos e as bandas irão querer improvisar e “serem criativos”, oferecendo novas execuções e exibindo sua virtuosidade com todo tipo de diferentes trills e pausas e improvisações na melodia recebida. Novamente, isso pode ser um aspecto prazeroso de um concerto, mas na adoração cristã isso significa apenas que nós, a congregação, não conseguimos cantar junto. Então sua virtuosidade desperta nossa passividade; sua criatividade simplesmente encoraja nosso silêncio. E enquanto vocês possam estar adorando com sua criatividade, a mesma criatividade na verdade desliga a canção congregacional.

3. Se vocês, o grupo de louvor, são o centro da atenção, não é adoração. Eu sei que geralmente não é sua culpa que os tenhamos colocado na frente da igreja. E eu sei que vocês querem modelar a adoração para que nós imitemos. Mas por termos encorajado vocês a basicamente importar formas de execução do local do concerto para o santuário, podemos não perceber que também involuntariamente encorajamos a sensação de que vocês são o centro das atenções. E quando sua performance se torna uma exibição de sua virtuosidade — mesmo com as melhores das intenções — é difícil opor-se à tentação de fazer do grupo de louvor o foco de nossa atenção. Quando o grupo de louvor executa longos riffs, ainda que sua intenção seja “ofertá-los a Deus”, nós na congregação nos tornamos completamente passivos, e por termos adotado o hábito de relacionar a música com os Grammys e o local de concerto, nós involuntariamente fazemos de vocês o centro das atenções. Me pergunto se há alguma ligação intencional na localização (ao lado? conduzir de trás?) e na execução que possa nos ajudar a opor-nos contra estes hábitos que trazemos conosco para a adoração.

Por favor, considerem estes pontos com atenção e reconheçam o que eu não estou dizendo. Este não é apenas algum apelo pela adoração “tradicional” e uma crítica à adoração “contemporânea”. Não pense que isto é uma defesa aos órgãos de tubos e uma crítica às guitarras e baterias (ou banjos e bandolins). Minha preocupação não é com o estilo, mas com a forma: O que estamos tentando fazer quando “conduzimos a adoração?” Se temos a intenção que a adoração seja uma prática congregacional de comunhão que nos traz a um encontro dialógico com o Deus vivo — em que a adoração não seja meramente expressiva, mas também formativa² — então podemos fazer isso com violoncelos, guitarras, órgãos de tubos ou tambores africanos.

Muito, muito mais poderia ser dito. Mas deixe-me parar por aqui, e por favor receba esta carta como o encorajamento que ela foi feita para ser. Eu adoraria vê-los continuar a oferecer seus dons artísticos ao Deus Triuno que está nos ensinando uma nova canção.

Sinceramente,

Jamie
____
¹Desiring the Kingdom – Worship, Worldview, and Cultural Formation (Desejando o Reino – Adoração, Cosmovisão e Formação Cultural) [N. do T.]
² De acordo com o The Colossian Forum, a despeito de a adoração ser encarada hoje em dia apenas como algo que se vai em direção a Deus (expressão), ao longo da história ela sempre foi encarada também como a causadora de algo em nós (formação). “A adoração cristã é também uma prática formativa justamente porque a adoração também é um encontro ‘descendente’ no qual Deus é o atuante primário” (Fonte: http://www.colossianforum.org/2011/11/09/glossary-worship-expression-and-formation/). [N. do T.]

Tradução: Cante as Escrituras.


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Já nos divertimos às custas do líder de louvor, mas a maioria de nós que estamos sentados nos bancos também precisamos de instrução para enxergarmos melhor o período de adoração comunitária na igreja. Lembre-se sempre que tudo o que oferecemos ao Senhor é adoração: da pregação ao café da manhã, dos dízimos e ofertas à projeção das letras no telão. Mas a adoração musical é onde as pessoas mais facilmente se desviam do foco. Aqui estão três conselhos para ajudar a manter o principal no lugar principal…

Deixe suas preferências no carro

A maioria dos carros de hoje está equipada com equipamento de som. Aqui, você é o capitão, o mestre do botão de volume. Você pode botar Third Day no último volume e aumentar o grave ou pode navegar suavemente com Ginny Owens. Você pode mergulhar na profundidade teológica do repertório de hinos antigos de Fernando Ortega ou balançar com o que for que a máquina de música pop de Bepo Norman esteja tocando ultimamente. É você quem decide, e isso é ótimo. Lá no seu carro.

Mas quando você entra na igreja, é hora da família.

Se há 200 pessoas na igreja, a minha opinião sobre a música vale exatamente 0.5%, e eu preciso reconhecer o quão desencorajador é, para o líder da banda, ouvir que EU prefiro um arranjo em acordes menores para O the deep, deep Love of Jesus.

Preferências de estilo são, por definição, pessoais. A igreja é, por definição, comunitária e corporativa.

Lembre-se quem é a Audiência

A banda não está lá para aceitar pedidos. Eles não são uma vitrola espiritual. Eles estão lá para nos liderar em nossa adoração conjunta a Deus, não para executar uma lista de músicas que nos agradam. Se eu realmente quero ouvir uma versão a cappella de Amazing Grace, graças ao iTunes e o YouTube, eu posso fazer isso assim que sair do culto.

Deus é a audiência, a congregação é o coro, e a banda está lá apenas para facilitar nossa oferta a Deus. Eu descobri que lembrar-me disso me ajuda a manter o foco na adoração.

Dê sua opinião da forma correta

Não estou dizendo que não há lugar, na igreja, para dar opiniões úteis ou sugestões construtivas. Se o som da banda não está chegando ao fundo da igreja ou o tamanho da fonte do projetor é muito pequeno, pode ser útil comunicar isso a um diácono. Mas a melhor forma de fazer isso é se informar de quem toma as decisões e fazer as sugestões a essa pessoa.

Na nossa igreja, temos um presbítero que cuida de todas as questões de música, som e projeção. Se uma pessoa reclama para o rapaz do som, outra chia para o líder da banda e algumas opiniões chegam aos ouvidos do pianista, não há uma centralização, e isso pode ser muito desencorajador para esses indivíduos. Eles podem pensar que seu papel individual no culto está sendo questionado. E, na maioria das vezes, eles só estão fazendo conforme foram instruídos.

Procure o encarregado, para que ele possa ter uma noção real de quão generalizado o sentimento é (por exemplo, mais de 0.5%) e possam tomar alguma atitude cabível. Isso ajuda tanto aquele que oferece as sugestões como o responsável pelas mudanças.


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Eu uso “líder de louvor” apenas no sentido de me referir ao cara que lidera a música. É claro, a adoração musical é apenas uma parte do louvor que acontece no Domingo. É apenas uma das velas acesas, ao lado da adoração por meio da pregação, da comunhão, do serviço, da entrega e de estacionar nas vagas mais distantes para que os mais velhos estacionem mais perto.

Mas quando as pessoas falam que gostaram do “louvor”, geralmente se referem à “banda”. E o primeiro a evitar isso deveria ser o próprio líder de louvor. Assim, aqui estão quatro dicas para o líder de uma banda…

Você não é um rock star

A tarefa do líder de louvor é não interferir na adoração, e redirecionar nossa atenção para Deus. Ele não fará isso se está mostrando sua habilidade de liderar. Líderes de louvor devem ser humildes. Devem se vestir com modéstia. Às vezes os músicos têm um estilo definido quando estão tocando durante a semana. Mas quando vão à frente, na igreja, sua marca pessoal é o mais importante. Quando um baterista reclama de ficar dentro do “aquário”, você já imagina que ele está mais interessado em se exibir do que em focar no Senhor. Quando o baixista pede por uma oportunidade de fazer um solo, aí está mais uma prima donna que você descobriu. O pastor precisa ser o principal responsável pela adoração musical. Se o líder da banda exige liberdade criativa, rejeita qualquer opinião dos líderes ou se torna impaciente com os limites impostos à escolha de músicas, então ele não é homem que você procura para essa tarefa.

Ele precisa se inspirar em Etã, o ezraíta (veja o Salmo 89), não na Better than Ezra [Melhor que Esdras]

O conteúdo é o principal

O líder precisa entender que sua preocupação primordial é o conteúdo das músicas. Uma doutrina sólida deve ser a marca de cada letra. Ele pode até ter que mudar algumas letras para conformar a música ao padrão doutrinário da igreja; não há problema nisso.
Nós já fizemos isso em nossa igreja. O sentimental “He thought of me above all” [Ele pensou em mim, acima de tudo] se tornou o levemente mais correto “He showed His love above all” [Ele demonstrou Seu amor, acima de tudo]. Ao selecionar músicas e hinos para o culto, a preferência pessoal é um luxo. Se os grisalhos gostam de “Castelo Forte”, toque-a com alguma frequência. Se os músicos não gostam… e daí? Isso não é a banda de garagem dele, é o culto a Deus, feito pelo seu povo.

Menos é mais

A música está lá para apoiar a letra. Stuart Townend, músico muito conhecido, em um treinamento sobre louvor em Joanesburgo, falou a alguns líderes que, às vezes, é melhor se perguntar não “como eu deveria tocar para essa parte ficar melhor?”, mas “eu deveria tocar nessa parte?”. O que ele quis dizer é que há momentos em que é melhor silenciar os instrumentos e deixar as vozes da congregação encher o ambiente.

Serve como um bom lembrete que apitos, sinos e outros sons podem levar a congregação a se distrair. Exemplo: quando um guitarrista está fazendo um solo desnecessário, pense no que o resto de nós está fazendo. Estamos lá, em pé, assistindo. Penso que poderíamos usar esse tempo para admirar a glória de Deus na habilidade de sua criatura de improvisar. Mas na verdade, a maioria de nós fica só esperando a nossa vez de louvar a Deus.

Louve!

Os membros da banda não estão dando um show, estão adorando. Deus deve ser seu foco. É por Ele que eles chegam cedo para ensaiar e ficam até mais tarde desmontando os equipamentos. É por Ele que eles treinam, sozinhos, durante a semana. O Domingo é sua oferta para o Senhor. Eles precisam ser como o Little Drummer Boy e tocar o seu melhor para Deus (pa-rampam-pam-pam).

Essa mentalidade também ajuda a banda a lidar com as reclamações das pessoas.

Na era do iPod, quando podemos ter todas as músicas que gostamos no bolso, na altura que quisermos, o estilo das músicas do louvor se torna um problema na maioria das igrejas.

Alguns querem ouvir mais o baixo, outros desejam que o baterista tire longas férias. Alguns gostam mais alto, outros querem ouvir suas próprias vozes. Esse tipo de coisa pode paralisar um líder. Mas quando lembramos Quem é a audiência realmente, alivia-se a pressão de agradar os homens.


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