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Palestra apresentada à Associação Batista dos Músicos do Brasil

INTRODUÇÃO

Da palestra passada não se deve inferir que advogo uma Igreja alienada, ensimesmada, enfurnada em quatro paredes, cantando “somos um pequeno povo mui feliz” enquanto o mundo lá fora está rebentando por todas as juntas, numa frase de Sartre. Se o Programa de Educação Religiosa dá o cultuar a Deus como a primeira missão da Igreja, declara que a segunda missão é “anunciar as boas-novas”.

Vou usar o termo proclamação para esta segunda missão, que é a evangelização. É preciso também defini-la. É mais que pedir aos homens para aceitarem a Jesus como Salvador. Diga-se que esta construção de palavras, “aceitar Jesus como Salvador”, não consta do Novo Testamento. A chamada neotestamentária é para submeter-se a Cristo como Senhor.

A proclamação é o anúncio dos atos de Deus em Cristo. Paulo sintetizou isto de forma admirável em 2 Coríntios 5.19: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”. Foi isto que Deus fez em Cristo. É isto que a Igreja deve anunciar.

A missão da Igreja junto ao mundo é mais que promover a fraternidade entre os homens. Voltemos a Paulo, desta vez em 2 Coríntios 5.20: “…rogamo-vos, pois, por Cristo, que vos reconcilieis com Deus”. A Igreja chama o mundo a aceitar a reconciliação com Deus, proposta que ele já fez na pessoa de Jesus Cristo.

Juntemos as pontas até agora. A adoração é a missão primeira da Igreja em termos gerais,. É a linha vertical da missão da Igreja. A proclamação é a missão segunda da Igreja em termos gerais, mas é a primeira na linha horizontal, na direção do mundo. Vertical e horizontal fazem a cruz, que tem estas duas linhas. Se faltar uma delas, a cruz não existe. A Igreja é uma comunidade profundamente marcada pela cruz. É ela uma comunidade marcada pelas linhas horizontal e vertical. Sua missão tem também uma dimensão horizontal e outra vertical. Se ela viver enclausurada em adoração, só na dimensão vertical, isso pouco ajudará ao mundo. Se se dirigir ao mundo (a dimensão horizontal) sem o poder que a comunhão com Deus pela adoração outorga ao homem, isso será uma missão fadada ao fracasso. Só uma Igreja que vive na presença de Deus conseguirá mostrar Deus ao mundo. Como comunidade marcada pela cruz, a Igreja se dirige a Deus e ao mundo. Tem uma missão vertical e uma horizontal. Ela adora a Deus, sua razão primeira de ser. Ela proclama a reconciliação aos homens, conseqüência do seu conhecimento de Deus.

1. A Relação Igreja e Mundo

Já vimos a relação entre a Igreja e Deus, na preleção passada. Veremos agora a relação entre a Igreja e o mundo. Ela está no mundo, mas não se mancomuna com ele. Vive numa tensão, estar, mas não ser. está aqui, mas não é daqui. E está aqui com uma missão, que chamei de missão horizontal: a de proclamar o evangelho. Duas questões devem ser aqui levantadas. A primeira é o que entendemos por evangelho. É evidente que aqui não me refiro ao estilo literário encontrado na Bíblia, mas ao seu conteúdo. A segunda é o que entendemos por proclamação.

2. O Conteúdo do Evangelho

O conteúdo do evangelho pode ser deduzido desta declaração do Pacto de Lausanne, ao falar sobre o que é evangelizar: Evangelizar é difundir as boas novas de que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou segundo as Escrituras, e de que, como Senhor e Rei, ele agora oferece o perdão dos pecados e o dom libertador do Espírito a todos que se arrependem e crêem. A definição é sobre o que é evangelizar, mas caracteriza bem o conteúdo do evangelho. E mostra o que é proclamação. A encarnação de Deus em Cristo, sua morte vicária, sua ressurreição, o perdão oferecido e o Espírito que é dado aos arrependidos que crêem. Proclamar as boas-novas é dizer isto.

Por que comecei com algo tão óbvio? Acho que meu raciocínio é muito cartesiano e por isso gosto de começar do mais elementar para construir a argumentação. Mas é que há hoje muita proclamação equivocada, oferecendo riqueza, cura, apoio da parte de Deus, mas sem falar em necessidade de arrependimento, de perdão de pecados, da morte de Cristo na cruz. Dirá alguém: “Ótimo, diga isso aos pregadores”. Ah, sim, sempre digo. Mas devo dizer também aos músicos que usam um instrumento tão poderoso como a música para a proclamação. O conteúdo de nossos hinos e de nossos cultos deve realçar fortemente um conceito correto do evangelho. O que me prendeu primeiro à Igreja foi a música. Quando entrei pela primeira vez numa igreja evangélica, ouvi o coro cantar dois hinos: “Eis vede que o Cordeiro de Deus sobre a cruz morreu em meu e em teu lugar” e “No Monte das Oliveiras Jesus orou dizendo..”. Não entendi completamente a mensagem pregada porque não dispunha de capacidade para acompanhar um discurso religioso por meia hora. Faltavam-me os elementos para fazer as conexões mentais necessárias. Entendi que tratou de algo que eu não tinha e de que precisava, por isso voltei nos domingos seguintes e volto até o dia de hoje, mais de trinta anos depois. Mas a música, com sua facilidade de comunicar uma mensagem, de repetir refrães, ficou na minha mente. O que me alcançou primeiro foi a mensagem correta dos hinos que ouvi. Depois, a mensagem correta da Palavra, que o Pr. Falcão Sobrinho sempre pregou, que me alcançou. Aliás, até hoje, meu conteúdo teológico é pietista, o que herdei dele.

O que estou dizendo é da extrema necessidade de teologia correta em nossos cânticos e de comunicação eficiente nas nossas letras. A Igreja não deve apenas pregar uma mensagem ortodoxa, mas deve cantar também hinos ortodoxos. Num culto de proclamação, os hinos não são para amolecer os corações ou para criar um clima emotivo. Os hinos devem comunicar uma mensagem. Creio que todos já tivemos a experiência de uma audição ou cantata apresentada por um coro ou um culto musical, e depois, quando feito o apelo, sucederam várias decisões. A música não é um apêndice ou um componente da proclamação. Ela também proclama e isso deve ser levado em conta, no tocante ao conteúdo e à escolha dos hinos. A Igreja não apenas prega para o mundo, ela também canta para o mundo. E, por vezes, o mundo ouve mais o que a Igreja canta do que o ela prega.

Acho que isso nos abre um leque para algumas considerações.

3. O Conceito de Proclamação

Já deixei antecipado alguma coisa sobre a proclamação no tópico anterior. Nem sempre se separam bem os argumentos. Vou começar aqui com uma história triste, que deveria ser engraçada. Ou engraçada, que deveria ser triste. A ótica vai ser sua. Dizia-me um seminarista, filho de pastor, que na igreja do seu pai, a linha dos sermões era bem definida. De manhã, sermão era doutrinário. O pastor falava mal dos pentecostais. À noite, sermão era evangelístico. O pastor falava mal dos católicos. Tirando o exagero da história, fica a pergunta: existe esta linha tão bem definida, de que o culto evangelístico é para os não crentes? Quando se pensa assim, a proclamação passa a ser uma recitação de frases feitas, tipo “Deus te ama”, “Jesus salva”, “Vem agora porque um ônibus pode te atropelar na saída do culto e amanhã será muito tarde”, etc. Um conteúdo banal e irrelevante, no sentido de acréscimo à vida dos crentes.

Volto ao Programa de Educação Religiosa. Ele é como a Constituição: tem valor, mas poucos o conhecem. Diz ele sobre o anúncio das boas-novas (que estou chamando de proclamação): Anunciar o evangelho significa comunicar tudo o que Deus fez através de Jesus Cristo para a salvação do ser humano. É colocar as pessoas frente a frente com as boas-novas da redenção outorgada por Deus por meio de Cristo. É a evangelização. E, na seqüência imediata, para o que chamo a sua atenção, o seguinte: Não é somente anunciar as boas-novas aos incrédulos, mas também ajudar os crentes a dissiparem suas dúvidas, até que todos cheguem “à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Efésios 4.13).

A proclamação não é recitação de chavões, mas é o ensino da teologia da salvação, o que os teólogos, pomposamente chamam de soteriologia. Um culto de proclamação não apenas coloca os não crentes diante da graça de Deus oferecida em Cristo, mas firma no crente suas convicções sobre sua decisão, ajuda a aumentar seu conhecimento sobre a obra de Cristo, dá mais elementos para sua capacitação no testemunho.

Vejamos o papel da música aqui. É evidente que, para pessoas sem conhecimento do evangelho, sem elementos evangélicos em sua mente, a letra deverá ser simples (o que não significa ser banal ou fraca) e comunicar alguma coisa. Sem apedrejar ninguém: fui pregar num culto jovem, com propósito de evangelizar jovens. Cantamos apenas corinhos. Mas o ritmo se sobrepunha à letra. Era tão agitado e tão instrumental (no sentido de que os instrumentos apareciam mais que a mensagem) que nada comunicava. Não se ouvia a letra, mas apenas os instrumentos. E a letra se perdia num ritmo muito rápido, não podendo ser assimilada. Quando chegou a hora da pregação, defrontei-me com um auditório cansado, agitado, mas sem nenhum elemento evangélico assimilado. Os jovens estavam muito bem intencionados, mas mal orientados. A música evangélica, naquela noite, não pregou, e serviu para cansar. Pareceu-me, até, que atrapalhou. A reflexão que o sermão poderia trazer se perdeu porque o auditório estava excitado e sem condições de pensar.

A proclamação deve ser compreensível. Não é apenas o sermão, mas os hinos. Deve haver compatibilidade entre letra e música. Se o ritmo não favorece a mensagem comunicada pela letra, haverá prejuízo. Deve haver, também, compatibilidade entre ritmo e propósito. Quando estudei Publicidade, um dos pontos que me foram mostrados foi o uso da música para vender. Observem que em supermercado a música não é lenta, para favorecer a reflexão. É agitada exatamente para que as pessoas não pensem e ajam sob a influência de cores, formas, luzes e exposição de objetos. É para induzir à compra. Há uma música para supermercado. Há uma música para um restaurante de luxo, com jantar à luz de velas, onde o desejo é que o casal tome um champanhe, que é mais caro que uma cerveja. O ritmo funk num restaurante de luxo, freqüentado por pessoas abonadas, frustrará o propósito do restaurante. Não se consumirá.

Não estamos querendo manipular pessoas, mas querendo mostrar que há um poder na música que as pessoas nem sempre relevam. Para mim aqui reside o grande problema. Seja por pressão, seja para manter os jovens aquietados, boa parte dos pastores está deixando a música na Igreja nas mãos de moços bem intencionados, mas desconhecedores do poder da música, dos estilos e a sua relação com os tipos de mensagens, de teologia (quanta barbaridade se canta por aí) e de português (Camões teria um ataque apoplético se entrasse em algumas de nossas igrejas).

A música proclama através de uma teologia correta, de uma adequação entre mensagem e veículo, ou seja, entre conteúdo e forma. Nestes pontos ela precisa ser muito bem ajustada.

Fugi um pouco da linha de pensamento. Voltemos a ela: a música comunica não apenas aos incrédulos, mas aos crentes. Para isso precisamos de hinos consistentes, que tragam uma mensagem com conteúdo. Não sou músico, mas sou pregador e dirijo cultos. Neste sentido, em minha ótica, quero dar como exemplo do que estou dizendo o hino 447, do HCC, “Mas Eu Sei em Quem Tenho Crido”. A letra é um testemunho admirável, consistente, de teologia correta, de vida cristã piedosa e casada com uma música adequada. É um hino que comunica ao não crente, e da mesma forma, é um alento extraordinário para o membro de Igreja. Da mesma forma, o hino 262. Observem nele uma teologia correta extremamente contextualizada, porque trata da angústia do homem moderno, de solidão, de medo do futuro. Vejam que a música é muito bem encaixada porque induz à reflexão. Imaginem, agora, uma letra desta, reflexiva, induzindo à auto-análise, acoplada um ritmo agitado. Observe também que, além de evangelístico, de proclamar, o hino é confortador. Sua mensagem trata de realidades que nós, membros de Igreja, também enfrentamos.

Uma síntese deste ponto: proclamação não é chavão. Alcança também o convertido. E o casamento letra e música e indispensável para alcançar o propósito de comunicar.

4. Uma Questão Necessária: A Forma.

Ao encerrar o primeiro ponto disse eu que aquilo nos abria um leque. Um dos grandes problemas hoje é a forma. Em alguns momentos, ela é sobreposta ao conteúdo. O ritmo fala mais alto que a letra. Qual é a forma correta?

Voltemos ao que citei na ocasião: A música não é um apêndice ou um componente da proclamação. Ela também proclama e isso deve ser levado em conta, no tocante ao conteúdo e à escolha dos hinos. A Igreja não apenas prega para o mundo, ela também canta para o mundo. É preciso distinguir bem entre o que nos comunica e o que comunica ao mundo. Creio que acontece com os músicos batistas o mesmo que acontece com os pregadores saídos de seminários. Saímos com uma fraseologia, com um tecnicismo que pode ser bom ou desastroso, com uma determinada visão até mesmo elitista.

“O processo soteriológico tem sua gênese concretizatória no drama do Calvário” significa isso: o plano de salvação culminou na cruz. Vou mexer em vespeiros, mas vamos lá. Conto com sua misericórdia. Para nosso povão, o que significa boa parte da música sacra clássica? Podem até achar interessante, mas quanto comunicará? Contava um professor de Homilética de um pregador enfiado num terno preto, com colete e tudo, Bíblia na mão, pregando numa favela do Rio: “Ó vós que passais e me ouvis a prédica”. E dizia o professor: “Vós, coisa nenhuma. Meia dúzia de gatos pingados, de sandália de dedo, bermuda e sem camisa. É tu, você, ô cara”. Descontado o aspecto cômico, há verdade aí.

Passei por algo semelhante quando pastoreava no interior de S. Paulo. Num culto em Jaú, na Fazenda Barro Vermelho, dos Almeida Prado, não pude pregar. Inflamação das amígdalas. Minha esposa contou história para os ouvintes, com flanelógrafo e figuras. Acabado o culto, disse-me um dos bóia-frias: “Pastor, num prega mais pra nós, não. Quando o senhor fala nós num entende nada. Quando sua muié fala, nós entende tudo. Deixa ela pregar”. Era o meu tecniquês teológico o grande obstáculo. E eu pensava que estava abafando.

O que o mundo a quem estamos proclamando, canta? Conheço igrejas indígenas. Não sei quanto o “Dai Louvor”, de Mendelsohn, significará para elas. Talvez pouco. Mas sei que músicas no seu alcance cultural significará muito. E se alguém pensa que isso significa tambores, tantãs, barulho infernal, danças, está equivocado. O ritmo, das igrejas que conheço, é até lento. Mas comunica-lhes porque é na sua cultura. A mim, enfada. A eles, fala muito.

Não vou ensinar missa ao vigário, mas os irmãos sabem muito bem que boa parcela de nossas músicas sacras foi importada de outra cultura e aqui sacralizada por seu casamento com uma letra evangélica. Para nós, acostumados com o cenário evangélico, há muita comunicação. Para outros, não. Um padre, que se convertera ao evangelho em Brasília, conversando comigo uma vez disse: “É impressionante como os hinos evangélicos refletem a cultura musical americana. Se fechar os olhos e ignorar a letra, posso pensar que estou no Meio-Oeste norte-americano”. Se há uma coisa pela qual me bato é pela teologia tupiniquim, pela eclesiologia tupiniquim, pela música tupiniquim. Dirá alguém que a teologia, por ser bíblica, é uma só, universal. A declaração não reflete a realidade e não penetra na profundidade das coisas. Temos livros sobre aconselhamento pastoral, sobre ética e sobre eclesiologia que mostram um enorme desconhecimento do que seja nossa realidade. Nossa própria formação teológica, nossa estrutura de seminários, é de países ricos e não de país pobre. Sou favor de uma ampla tupiniquinização batista, sem xenofobia, mas tupiniquinização, sim.

Devemos proclamar em nossa cultura, em nosso contexto, em nossa linguagem, em nossa musicalidade, tendo discernimento espiritual (temos o Espírito Santo) sobre o que fazer e o que não fazer.

À guisa de conclusão

Cada vez que relia esta palestra, mais a sentia incompleta. Fiquei um pouco aflito porque notava que falta algo para dizer. Mas consegui me entender (tarefa um pouco difícil). Receei-me de dizer aquilo que os irmãos já sabem e sabem melhor do que eu, na sua área. E estou falando de matéria atinente à sua área. Precisava apenas acrescentar minha ótica, a ótica pastoral. Depois de reler mais de uma vez, achei que tinha dito o que deveria ter dito. A questão, a partir daqui, é ajuntar a sua bagagem cultural na área de música com minhas reflexões pastorais. Somando as duas partes, pensar um pouco e verificar como a música pode ser mais bem empregada na proclamação. Aí creio que chegaremos a algum ponto.


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“O cristianismo hoje está centrado no homem, ao invés de ser centrado em Deus. Deus é obrigado a esperar pacientemente, e até respeitosamente, pelos caprichos dos homens. A imagem de Deus popular atualmente é a de um Pai distraído, lutando em desespero inconsolável para levar as pessoas a aceitarem um Salvador de quem elas não sentem necessidade e em quem possuem muito pouco interesse. Para convencer essas almas autossuficientes a responderem às Suas generosas ofertas, Deus fará quase qualquer coisa; até mesmo usar técnicas de vendas e sussurrar em seus ouvidos do modo mais amigável que possamos imaginar. Essa visão das coisas é, naturalmente, uma espécie de romantismo religioso que, embora muitas vezes use termos elogiosos e por vezes embaraçosos em louvor a Deus, consegue, contudo, fazer do homem a estrela do show.” (A.W. Tozer)

Não quero parecer severo ou crítico demais, mas algum de vocês já notou que a vasta maioria da música que cairia na categoria “Cristã”, na verdade não é a respeito do próprio Deus? Penso que particularmente este é o caso do Hip-hop cristão, mas isso também pode ser visto em outros gêneros. Como posso dizer? Bom, a maioria das músicas que eu ouço é mais sobre NÓS e nossa resposta a Deus, mas não a sobre o próprio Deus. Não me entenda mal. Há um lugar para a música que trata de nossa resposta a Deus, mas quando esse é o caso da esmagadora maioria das músicas, nós lentamente começamos a distorcer a verdade sobre quem é o Deus ao qual deveríamos estar respondendo. A citação de Tozer acima foi escrita mais de 50 anos atrás, mas poderia ter sido escrita ontem. Nossa cultura é extremamente narcisista e antropocêntrica, e parece que muito da música cristã seguiu o exemplo. A Bíblia, contudo, é radicalmente teocêntrica, e eu creio que uma visão radicalmente teocêntrica deveria ser refletida nas canções que compomos. Por causa de nossas tendências antropocêntricas, as canções que cantamos sobre Deus geralmente tratam das coisas de que nós gostamos n’Ele (que normalmente são as coisas que diretamente nos beneficiam ao máximo), como Seu amor, sua misericórdia e seu perdão, etc. Essas coisas são gloriosas e nós devemos, sim, compor canções a respeito delas. No entanto, se só falamos a respeito disso, acabamos criando uma visão de Deus incompleta e deficiente, que não está alinhada à Sua autorrevelação.

Então, por exemplo, quando foi a última vez que vocês ouviram uma música contemporânea que tenha ecoado as antigas canções de Davi sobre a retidão e a justiça de Deus (Sl 11:7)? Qual sucesso cristão nas paradas canta juntamente com Naum que Deus é “ciumento, vingador e cheio de ira” (Naum 1:2-3)? Quem está produzindo músicas que falam do reino soberano de Deus sobre Sua criação (Sl 2 e 115)? Vocês podem me indicar uma canção popular que celebra a onisciência de Deus junto com Ana (1Sm 2:3)? E a eternidade de Deus, juntamente com Moisés (Sl 90:2)? E os julgamentos de Deus, juntamente com Miriã (Êx 15:21)? Essas coisas são ditas com frequência nas Escrituras, particularmente no contexto de canções Bíblicas, e ainda assim elas tendem a estar amplamente ausentes de nossas canções hoje em dia. Não quero dizer que ninguém esteja fazendo isso. Deus tem levantado um número crescente de compositores que estão expondo sobre Seu caráter. Mas quando algo tão fundamental e essencial tem sido tão mal feito, se torna importante que outros se preparem e contribuam. O álbum Os Atributos de Deus* é simplesmente minha tentativa de tal contribuição.

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* Álbum de RAP cristão intitulado de “Os Atributos de Deus”, onde todas as canções falam sobre um ponto do Ser de Deus. Você pode ouvir samples e comprar o CD neste link.

Por Shai Linne © Lyrical Theology. Website: lyricaltheology.blogspot.com

Tradução: voltemosaoevangelho.com

Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que adicione as informações supracitadas, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.


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Para finalizar esta pequena série de artigos, partirei para um texto um pouco mais ‘crítico’, uma vez que nos dois textos anteriores, tratei diretamente sobre aquilo que, em suma, deveria estar presente nas canções entoadas nas igrejas em nosso país.

Considerando que a música na igreja precisa cumprir seu propósito, precisamos analisar melhor aquilo que tem sido tocado nos altares bem como o que se ouve nas produções de alguns ‘artistas gospel’. Estou fazendo um apelo em especial para liderança. Atenção à sua responsabilidade nesta área!

Não vou entrar no mérito de analisar condutas pessoais de cantores, sejam pessoas desconhecidas ou mesmo os pop stars gospel. Me atento ao ensino, a doutrina, a mensagem transmitida nas canções, tanto de famosos como de meros desconhecidos, que, sejamos francos, estão aí no mercado buscando seu lugar ao sol.

Não sou músico, não sei tocar instrumento algum. Também não sei cantar, sou desafinado até batendo palmas. Mas como tudo no âmbito da igreja precisa e depende da aprovação das Escrituras, estou no completo direito bíblico de examinar a mensagem. Até por que, música também é uma ‘pregação’.

Portanto, tome por base, por aquilo que você ouve, se tais pregações são edificantes, se engrandecem o nome de Deus, se estão comprometidas com a Bíblia, se estão em sintonia com a doutrina cristã, e se de fato, o Senhor é adorado e louvado nelas.

Existe um princípio que precisa ser adotado na igreja em nossos dias – urgentemente. Para que exista um momento de culto, de louvor e adoração, precisamos dos elementos para tal: o meio de adoração (música, canto, palavras, expressões, etc), o adorador (pessoa e pessoas), e – evidente – o Adorado. Todas as vezes que o primeiro ou segundo elemento estão em evidência que ‘ofusca’ o Adorado, não existe culto.

O que quero dizer com isso? Que se em nossas canções o centro não é Deus, Ele não está sendo adorado! Se os feitos que são enaltecidos não são os feitos de Deus, logo, Ele não está sendo louvado!

Vamos aos exemplos?

Canções com repetições ao extremo, músicas de dois versos que duram dez minutos (mantras gospel), letras antropocêntricas onde o homem, seu prazer e conquistas são o foco, letras traduzidas mal feitas e desconexas, erros de concordância, gramática e tempos verbais, enfim, a lista vai longe no mercado das aberrações.

Com a desculpa de “é pra Deus, e de todo o coração”, nossa geração está produzindo um legado horripilante!

Veja só (os destaques em caixa alta sempre serão meus):

Quero subir em Teu colo
COMO CRIANÇA ME EMBRIAGAR
No Teu amor

Alguns chamam esta letra de “melô da criança bêbada”. Não se acha nas Escrituras respaldo para uma música assim (mesmo com licença poética).

Em nome da adoração extravagante, o culto racional é diluído (Rm 12.1).

Já posso ouvir o som, o som,
De abundante chuva (4x)

CHUVA, CHUVA, CHUVA
CHUVA, CHUVA, CHUVA
CHUVA, CHUVA, CHUVA
CHUVA, CHUVA, CHUVA
CHUVA, CHUVA, CHUVA
CHUVA, CHUVA, CHUVA
CHUVA, CHUVA, CHUVA
CHUVA, CHUVA, CHUVA

Elementos da natureza são apreciados em demasia pelos extravagantes. Houve a época recente em que a cada 10 letras, 20 tinham a palavra ‘chuva’. É uma prova contundente que boa parte do mercado da música sempre anda – ou dança? – ao embalo da mesma moda. Nada se cria, tudo se copia.

Pela fé posso clamar
Pela fé posso enxergar
Pela fé posso tocar
Pela fé, pela fé
Não há muralhas que ficarão de pé
Diante de mim
Estou firmado em Cristo pra sempre
Tenho a luz em mim
Pela Fé…

Eis um exemplo clássico onde a perniciosa Confissão Positiva invadiu o campo musical para espalhar seus devaneios. O mais interessante desta letra é que não se fez menção alguma sobre a fé salvífica, sobre o dom gracioso de Deus atrelado a salvação (Ef 2.8). A mensagem da cruz ficou de lado para que ‘as muralhas caiam diante de mim’. Músicas antropocêntricas para massagear o ego das massas.

Deixa Deus fazer agora em tua vida
Deus vai derramar agora em tua vida
Vinho novo, Vinho novo, Vinho novo,
Abundantemente em tua vida
Vinho novo, Vinho novo, Vinho novo,
Abundantemente em tua vida
Vinho novo, Jesus
Em odres novos, nossas vidas

Houve também um breve tempo em que a palavra “vinho” figurava em diversas músicas. Esta é mais um exemplo em que o cerne da música é o ser humano. A exaustiva repetição “Vinho novo” mostra – assim como em músicas repetitivas – a característica de letras vazias.

Quem te viu passar na prova
E não te ajudou
Quando ver você na benção
Vão se arrepender
VAI ESTAR ENTRE A PLATEIA
E VOCÊ NO PALCO
Vai olhar e ver
Jesus brilhando em você
Quem sabe no teu pensamento
Você vai dizer
Meu Deus como vale a pena
A gente ser fiel
Na verdade a minha prova
Tinha um gosto amargo
Mas minha vitória hoje
Tem sabor de mel

Está música é o clássico exemplo das canções triunfalistas entoadas por aí. Existe um estereótipo de cantora e letras que remetem sempre para a mesma ideologia “da vitória”. Em minha opinião, este é o hino máximo do culto antropocêntrico. E pior que isso, é um tributo à vingança. Talvez o leitor me considere um exagerado, mas quando ouvi tal música e li sua letra não percebi outra coisa na mesma senão o explicito sentimento de vingança. Convém ao cristão tal espírito vingativo?

VAI TUDO VIRAR CRENTE
Líderes de êxito
Apaixonados por Jesus
VAI TUDO SER VALENTE
Totalmente dependente de Deus

Com a necessidade de encaixar rimas sem sentido, os “levitas” criam letras que ferem até mesmo a conjugação verbal. Fracas teologicamente, sem glorificar a Deus e cheias de erros de português. O que tal letra agrega?

Ligue pro Senhor, que Ele o atende
Não tem secretária, é o sobrenatural
Ligue pro Senhor, que Ele é seu sustento
LIGUE, LIGUE AGORA, QUE É 0800

Sem comentários.

***

Percebe? Percebe que na ânsia de entreter as massas tais “artistas” mesclam conceitos, criam aberrações doutrinárias, promovem a Teologia da Prosperidade, focam o homem, seus desejos e vontades, e se esquecem de Deus e Sua santa Palavra?

Nada contra o contemporâneo, mas em nome do novo, cria-se mero entretenimento, e sejamos francos, Deus não é entretenimento, nem Seu Reino, nem Sua glória.

Nesta onda estranha, os valores são invertidos, e o Adorado torna-se um servo da igreja, para deleite de homens.

Basta!


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